segunda-feira, 26 de março de 2018

Um passeio pela Olinda de Galeguinho – os monumentos por trás dos Monumentos.


Como todo bom paraibano ex-bairrista – que hoje não está nem aí para esses discursos patrioteiros e por aí vai –, aprendi que em relação a Pernambuco vale uma paráfrase do mesmo que Sérgio Buarque de Holanda ironizou espirituosamente para a distinção entre espanhóis e lusitanos: tire tudo que tem de grandioso num pernambucano e sobrará um paraibano rsrsrsr, caro e irritado leitor tabajara rsrsrs. E viva o período nassoviano, meus queridos amigos do Grande Irmão do Sul rsrsrs – haja veneno escorrendo no começo da historieta rsrs.
                Por essas e por outras é que terminei meu Curso de Graduação em História na UFPB sem ter ido a Olinda (apenas a uns cento e poucos quilômetros de nossa querida Filipeia), um pecado venial com altas doses de mortal e que exige muitos atos de contrição, penitências e castigos celestiais. Só o fiz em 1994, a instâncias de Mirza, Edson Joaquim e Claudinha Filippi, que tinham vindo de carro (um Gol cinza escritório de Edson) numa expedição de Campinas a João Pessoa. Para mim, na minha cachola estreita e inculta, bastavam nossas praias, nosso Centro e estavam reunidas todas as maravilhas do cosmo. Ainda bem que morei um tempo fora de nossa querida Capitania, sublime torrão do meu Brasil.
                A propósito, a tal viagem englobou quarenta dias, dez mil quilômetros, umas sei-lá-quantas Igrejas, Fortes e Casas velhas, além de alguma cerveja e outros ingredientes para arrefecer o calor e atenuar a fome. Para fazer o roteiro, projetamos um mapa do século XVII num mapa rodoviário atual e nos pusemos a tentar descobrir o que eram em dias atuais aquelas velhas cidades e vilas do seiscentos. Passamos por lugares como Vitória, Caravelas, Porto Seguro, São Cristóvão, Penedo e outros, e vivemos aventuras, algumas das quais ocasionarão futuras postagens nessas Diatomáceas. A tal da Conceição foi um enigma que só descobrimos na Vila Velha de Nossa Senhora da Conceição Itamaracá, de onde se podia ver ao longe Igarassu e a antiga fronteira das velhas Capitanias de Itamaracá e Pernambuco.
                Então, num final de manhã de Janeiro de 1994, nossa expedição chegou à bela e radiante Marim dos Caetés, bem em frente ao Convento do Carmo.
Bem em frente ao Carmo, lá estavam os meninos nos apresentando
sua cidade e defendendo seu pão de cada dia. 

                Num segundo, um barulhento e insistente magote de garotos cercou o carro e se prontificou a apresentar as grandezas da terra. Se o burguesinho pessoense já estava com certa dose de mal humor ante os desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco, a bile ferveu e a vontade do tapado que fui era de tirar o time o quanto antes. Mas, passado o primeiro momento, acabamos contratando um jovem conhecido por Galeguinho e tocamos em frente.
Galeguinho não demorou a mandar brasa em torno de datas, nomes de personalidades, a tal casa de Maurício de Nassau (construída uns 200 anos depois da morte do Conde alemão), a “Igreja mais velha do cosmo...” e outras glórias do passado. Num dado momento, já fartos de datas solenes, atos heroicos e celebridades, e sacando a inteligência do garoto, pedimos para que ele as esquecesse e nos falasse de SUA cidade: como por encanto, uma outra Olinda apareceu por trás da fachada, bela e sofrida. Fomos à casa do Senhor Bajado – um grande artista plástico local – e ele nos falou com a sapiência dos idosos acerca das dificuldades da vida. Depois, Galeguinho não deixou de nos mostrar os monumentos sem relacionar suas histórias (passado) às suas histórias (presente), fazendo intuitivamente o que Marc Bloch nos sugeriu fazer – dialogar no presente com o passado – mas que se transformou numa simples frase feita, que muitos usam e abusam nas provas, mas dificilmente compreendem. Galeguinho mostrou um senso histórico que às vezes faz falta a muito historiador de nomeada e pistolão. 
Rodando pelas pontes recifenses e conhecendo o lugar e
suas histórias pela ótica de Galeguinho
Rodamos ao longo da tarde e terminamos batendo pneus pelas pontes de Recife, enquanto Galeguinho nos falava de histórias bem menos edificantes e monumentais como exploração sexual de crianças, tráfico de drogas e coisas que às vezes ficam veladas pela fachada monumental de nossas belas e pitorescas cidades. Aquele cenário se tornou ainda mais grandioso que antes, porque os belos templos, o casario, passou a ser visto a partir do tempo presente e da gente presente, essa sim, o verdadeiro e maior patrimônio.

Uma aventura inusitada nos esperava no belíssimo Mosteiro. 
Um momento singular foi quando entramos no Mosteiro de São Bento, perto do final da tarde. Se a essa altura eu já tinha me convertido num olindense da gema e pernambucano de carteirinha, aí a coisa ganhou tons ainda mais empolgantes. A beleza do Mosteiro nos magnetizou e tentamos ficar em silêncio contemplativo – confesso que um dos maiores patrimônios nesses lugares é poder ouvir o silêncio, quando os visitantes param de grasnar –, enquanto os turistas batiam fotos, os guias recitavam datas e o burburinho dominava o lugar. Por volta das 17 horas, o Monge de plantão – cujo nome omitiremos aqui por motivos que se tornarão claros adiante – começou a cerrar as portas e nós avisamos que ainda estávamos lá. Ele disse que ficássemos tranquilos, porque tinha visto nossa atitude e nos deixaria apreciar o Mosteiro por mais um tempo, enquanto acabava de fechar as portas.
Ato contínuo, o Monge chegou perto de nós e disse:
– Vou lhes dar um presente. Vocês não podem levar pra casa, mas podem ver.
O monge desabafou as querelas internas antes nossos
ouvidos incrédulos. 
Aí a coisa ganhou uma dimensão quase onírica. Ele nos levou ao Claustro, mostrou a estonteante Sacristia, o Coro e conversou bastante. Ao final, achamos que ele precisava conversar/desabafar com alguém de fora da Ordem. Ele nos narrou – sem entrar em detalhes escabrosos – uma série de querelas internas ao Mosteiro e à Ordem que nos fez lembrar das tramoias de “O Nome de Rosa”, do grande Umberto Eco. A história tinha direito a doses de espionagem, puxadas de tapete e coisas que deixariam um Departamento universitário parecendo um jardim de infância rsrsrs. Jamais falamos muito sobre isso, porque a história era muito séria e pessoal.
O Pernambuco das delícias Nassovianas...   ... tinha sua contraface nos horrores da escravidão.

Ao final do passeio mágico, resolvemos levar Galeguinho no seu bairro, bem distante das suntuosas Igrejas e do vetusto casario. Era um bairro popular, de população trabalhadora, que estava bem longe dos próceres e heróis da história local. Lá não era lugar de Duarte Coelho, Maurício de Nassau nem de Bernardo Vieira de Mello, mas dos descendentes daqueles que construíram a riqueza da açucarocracia local.
Uma suposta imagem do heroi
          fundador Duarte Coelho.
... e uma outra história da cidade.
No ano seguinte, com outro grupo, encontramos Galeguinho e tornamos a bater um bom papo com o inteligentíssimo garoto. Novas coisas belas para ver, desde os maravilhosos bricellets (biscoitinhos artesanais) das freiras até outras histórias dessa ativa relação entre presente e passado, como tão bem Galeguinho conseguia fazer. Encontramo-lo mais umas duas vezes, da última vez bem triste e falando das dificuldades da vida. Depois, não o vimos mais nas idas a Olinda. Anos depois, conversando com outro guia local, perguntamos por Galeguinho: ele parecia saber de quem se tratava e nos informou que o rapaz havia morrido em situação ligada a drogas ou coisa desse teor. Não sabemos se a notícia procedia, mas ficamos muito tristes e sabemos que muitas histórias dessas acontecem diariamente em nossas cidades, que reúnem a pujança e a modernidade, ao lado da pobreza que avilta tantas vidas.
Em 1982 a bela Olinda foi elevada pela Unesco, mais que merecidamente, à condição de Patrimônio Histórico da Humanidade. Um já idoso Gilberto Freyre, num depoimento televisivo, falava de sua satisfação de ver aquele reconhecimento. Gilberto Freyre, um de nossos mais importantes intelectuais, com uma obra monumental que merece ser lida e que é sempre fonte de muito aprendizado. Gilberto Freyre, uma espécie de “mitólogo” da açucarocracia pernambucana e, por que não, de um ethos – que se estar a perder – das classes dominantes brasileiras, com seu engenhoso “equilíbrio de antagonismos” que o mundo do açúcar teria ajudado a amolentar e a docilizar. Pena que o doce mel dos tachos parece que não valeu para Galeguinho.
Mas o fato é que continuamos a ministrar aula nos anos que se seguiram, aqui e ali, e não conseguimos nos furtar inteiramente da visão monumental do patrimônio. Ver Ouro Preto, ver Olinda, ver Cachoeira e outros tesouros às vezes nos faz esquecer dos preços pagos por quem os construiu e da outra face da moeda do fausto – ou o falso fausto –, como bem nos lembrou Laura de Mello e Souza, num brilhante trabalho sobre a pobreza nas Minas Gerais setecentistas.
As ladeiras da velha e bela Marim...
e as ladeiras da Olinda de Galeguinho e seus colegas. 
Imperceptivelmente, nos slides projetados em aulas, essa visão monumental foi se acomodando como camada geológica-mental diante da contemplação das fachadas e altares barrocos. Ao ouvirmos o grande Alceu Valença entoar dolentemente que “Olinda tem a paz dos Mosteiros da Índia” ou cantar suas “ruas desertas, velhas paredes” ou suas “ladeiras de frevo e preguiça da velha Marim”, nos deixamos levar pelo sopro do vento e o balanço das ondas daquele verde mar que a nós e a todos encanta. 
Até que um dia, um susto: a TV Cultura apresentava uma série chamada Expresso Brasil, na qual artistas locais apresentavam seus Estados, tais como “A Paraíba de Chico César” (que mostrou lugares pobres da Capital das Acácias, para desgosto de nossas operosas classes dominantes locais), “O Ceará de Falcão” e outros. No caso de Pernambuco, o convidado foi o grande Antônio Nóbrega. Ao falar de Olinda, em frente a um belo casario, ele falou da pobreza que muitas vezes se escondia por baixo da fachada monumental, para além dos discursos louvaminheiros e patrioteiros bem típicos das elites locais e dos discursos pitorescos dos guias turísticos. O artista lembrava ao historiador que não esquecesse da história e que não esquecesse daqueles que a fazem mas não costumam a frequentar as páginas dos livros de história, mas sim as das tão tristes e absurdas crônicas policiais.
Assim, chegamos ao final desse passeio pela memória em um dia de passeio pela história. E toda história só valerá de alguma coisa e todo o patrimônio só valerá para alguma coisa se entendermos qual era o maior patrimônio dessa história: Galeguinho e aquela meninada olindense que batalha pela vida e a quem essa postagem é dedicada.    

segunda-feira, 5 de março de 2018

Duas noites em quatro décadas – a alegria do Cinema Santo Antônio ao Espaço Cultural


             Não é novidade que a chatice está se tornando epidêmica na espécie humana: quem não se deixa contaminar pelo opaco burocratismo tecnocrático, toma altas doses de bile e sai atacando indiscriminadamente quem pensa ou age com um milímetro de diferença. É muito fácil advogar o respeito às diferenças abstratas, difícil mesmo é respeitar os diferentes bem concretos à nossa frente. Tem gente soltando a franga do ódio como se isso não acabasse levando a criatura a adoecer (AVC, úlcera e coisas do gênero) ou cometer algum homicídio tresloucado no mundo virtual ou real. Quando alguém se filia a um grupo do tipo “eu odeio algo ou alguém”, tá precisando urgentemente de sexo ou uma experiência igualmente prazerosa. Parece que há microfascismos em profusão circulando doidamente por aí e propagado por almas atingidas por sofrimento profundo, por mais que alguns saracoteios possam fazer pensar o contrário. Acho que minha amiga Sara Valadares tem razão ao supor que a própria espécie humana simplesmente surtou.
                Entre a loucura generalizada ou a possessão demoníaca em massa, talvez fosse bom correr para um psicólogo (com a condição que o mesmo não esteja envolvido em alguma cruzada de ódio contra algo ou alguém), um xamã espirituoso, uma ialorixá risonha, um cura d’almas com alma curada ou um iogue pacato e pacificado. Enfim, esse ódio todo que lambuza as tintas das redes antissociais parte de um venenoso coquetel de medo e de ódio – ao final e ao cabo – voltado contra si próprio numa combinação bem esquisita de sadomasoquismo. Saravá, cruz credo, evoé, vôte!!!
                Vamos aqui, nesse breve momento, pensar em coisas boas, o que não significa abdicar de nossas responsabilidades e compromissos sociais. Preocupar-se com uma boa causa como a solidariedade ao sofrimento do povo sírio ou o devido protesto em relação à violência contra as populações mais pobres do Brasil (com seus devidos componentes classistas [para não esquecer que classes sociais existem e explicam golpes de estado, camaradinhas], étnico-raciais, regionais, sexuais e outros) não deve nos levar a beber a taça de fel que envenena o espírito e pode nos converter em pobres almas infelizes e consumidores vorazes de prozac e assemelhados. Vamos chorar nossas tristezas sem deixar de pensarmos nas pequenas alegrias que podem temperar um pouco as agruras cotidianas e nos tornar um pouco mais humanos.
                Aqui começamos uma pequena viagem pela memória de um garoto que então tinha uns 12 ou 13 anos, lá pelos fins dos anos 70, na provinciana e acanhada João Pessoa. Era no tempo da ditadura, mas não é desse inferno que a memória deseja falar.
O antigo Cine Teatro Santo Antônio, onde Sivuca mandou
ver e ouvir no final dos anos 70.

                O antigo Cinema Santo Antônio, no tradicional bairro de Jaguaribe, se não me engano exibia muito Shao Lin – o Rex e o Avenida parece que exibiam bastante pornochanchada, bem ao gosto da época, enquanto o Plaza e o Municipal pretendiam atender um “público mais seleto”, muito embora meus irmãos comentassem animadamente sobre as sessões “bacurau” que um dos dois levava à cena, e parece que a esculhambação era a tônica do negócio, além de eu mesmo ter assistido “Mulher objeto” e “As taradas atacam”, em um deles – mas, então, “deixemos de coisas, cuidemos da vida”.
Assim, realmente começando a singela história que adiante se segue, um de meus dois irmãos mais velhos – ou foram os dois? Melhor que tenha sido – me levou numa noite lá de 1978 ou 79, creio que no meio da semana, ao velho e bravo Cine Santo Antônio para ver a única vez em que vi o Mestre Sivuca ao vivo e em cores.
Sivuca com seu forró e frevo,
espalhando música e alegria.
              
  O que minha mente retém e faz questão de reter é uma noite simplesmente daquelas para sempre se lembrar. Ele tocou sanfona, piano, pandeiro, triângulo, violino, alguma coisa de sopro, acho que um total de 14 coisas e o escambau a quatro. Foi o delírio do público!!!... No final, começou a tocar o frevo de Vassourinhas em versão chinesa, árabe, soviética, argentina, sei-lá-o-que e, ao final, numa legítima versão pernambucana no meio do Carnaval recifense (ouvir). Nesse momento, Sivuca saiu com os músicos do palco, atravessou o salão e levou o distinto público até à frente do Cinema, para delírio coletivo de quem teve o privilégio de viver aquilo. Foi uma coisa meio dionisíaca na rua e só sei dizer que se a tal da felicidade existe de verdade, aquele foi um momento feliz.    

Lá se foram uns quarenta anos daquela noite, algumas tristezas (a maior delas a perda de um dos irmãos), algumas alegrias, algumas conquistas pessoais e outras derrotas fragorosas e chegou a noite de 24 de fevereiro de 2018, lá por volta das nove, quando o Quinteto da Paraíba adentrou no palco da Sala Maestro José Siqueira, com o convidado especial Maestro Spok (acompanhado dos fantásticos guitarrista Renato Bandeira e o baterista Adelson Silva, esse último uma espécie de entidade do frevo, um Dalai Lama dando pau na bateria), que deu uma espetacular e animadíssima aula de frevo (ouvir), com direito a menção a obras de gente como Carlos Gomes, Ernesto Nazareth, Sivuca, é claro, e músicos da mais alta qualidade, que seria a aula que um dia gostaria de dar na minha área de História, como tive a oportunidade de dizer ao próprio Mestre Spok.
Maestro Spok e Quinteto da Paraíba, que mandaram ver
e ouvir quase quarenta anos depois.
            
    Um pequeno entremeio, antes de seguirmos. Quero parabenizar com muita alegria o Quinteto da Paraíba pelo brilhante serviço que faz à nossa cultura e à nossa civilidade de propiciar o fantástico projeto Quinteto Convida, que trouxe generosamente para nós (e a preços acessíveis a estudantes, o que é importante) gente do quilate de Xangai, Carlos Malta, Nélson Ayres, Toninho Ferragutti, Zeca Baleiro, Duofel, Mônica Salmaso e promete muito mais (vide agenda). Cada uma das noites do projeto é uma grande lição de música e humanidade, daquelas boas cujas lições precisamos tomar de vez em quando. No encontro do penúltimo Sábado, Maestro Spok e o Quinteto da Paraíba promoveram um espetáculo que a Paraíba precisa lutar para que se repita em muitas salas e em muitas de nossas cidades; além do mais, é lógico, das demais exibições dos demais convidados da brilhante programação do projeto.
Entre as pérolas apresentadas estavam alguns frevos de Sivuca e a indefectível Vassourinhas, para coroar a noite. Ao final, eu, Aline e o público simplesmente nos levantamos e dançamos com grande satisfação. Não chegamos a sair Espaço Cultural afora como acontecera com Sivuca quarenta anos antes, mas o clima de alegria era o mesmo, como se o tempo não tivesse passado. Após tudo, o Maestro e o Quinteto ainda ficaram por lá, atenderam e conversaram gentilmente com todos os que solicitaram sua atenção. Spok ainda deu algumas canjas, da qual tive a honra de ser atendido com a belíssima “De chapéu de sol aberto” “pelas ruas, eu vou, a multidão me acompanha, eu vou... "(ouvir), do Mestre Capiba. Realmente, quase quarenta anos depois, ainda não sei se a felicidade existe como um estado permanente da vida, mas, por outro lado, posso afirmar com absoluta certeza que aquelas foram duas noites felizes, muito felizes.      


Para os meus irmãos Netto e Zé Jayme, que desde pequenos me fizeram gostar de ouvir discos e me levaram a muitos shows em João Pessoa.

Para as piscianas Marília (01/03) e Luíza (06/03), a quem desejo os parabéns com direito a muita música e alegria, de Sivuca a David Bowie.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Sinos, ladeiras e felizes encontros


          A coisa começou em 08 de Dezembro de 2004.
          Feriado em Campinas, Padroeira da Cidade. Ida bem cedinho a São Paulo para fazer a tão aguardada descida a pé da Serra do Mar. Caminhada simplesmente maravilhosa. Descanso de um ano profundamente desgastante. Pouca grana e muito cansaço físico e mental.
          Lá pela tarde, depois da volta da Serra e ainda circulando por Sampa - mais precisamente encarando um sanduíche de mortadela e um bolinho de bacalhau no Mercado Central - Edson Joaquim me liga, dizendo que ele e Paulo Valadares iriam de carro passar alguns dias vagando entre Ouro Preto, Mariana e região e me convidavam para ir junto. Eu disse que estava sem um tostão e muito cansado (a mais pura e cristalina verdade) e declinei do convite, mas eles não aceitaram um não como resposta.
          Ao chegar em casa, à noite, novos telefonemas de Edson e Paulo, me intimando a ir, desconsiderando meus argumentos e notificando peremptoriamente:
          - O negócio do dinheiro corre por nossa conta, você não paga um tostão. Esteja a postos às 05 da madrugada, que passaremos na sua casa e, se você não descer logo, haverá certo barulho que acordará sua vizinhança!!!
Nesse tesouro musical estão "Na hora do almoço" e o
"paletó de linho branco...".  
          Ante argumentos tão convincentes e reiterados, o jeito foi fazer as malas e esperar a viagem. Uma bagagem indispensável: vários CD's, entre os quais dois maravilhosos, que ouvia frequentemente à época, um de "Raimundo Fágner e Zeca Baleiro" e outro do "Pessoal do Ceará", com Ednardo, Amelinha e Belchior.
          Na estrada muito bate-papo sobre História, como não fazemos há anos, premidos pelo burocratismo da vida - o que pode parecer incrível, mas professores de História pouco conseguem falar sobre história ante assuntos tão mais palpitantes como índices, formulários, relatórios etc etc etc. Coisas como "visigodos", "guerra franco-prussiana" ou "Dona Maria I, a louca" são luxos de desocupados ou tempo perdido de quem não se ocupa de assuntos mais magnos como "índices de produção" ou "a essência do eu por mim mesmo", que oprime o cérebro dos vivos [mas não dos vivaldinos] como um pesadelo (e haja Prozac!!! O que me faz desconfiar que, simplesmente, muitos historiadores de ofício odeiam história...).
          Papo vai e música rolando no som do carro, quando, na altura de Itatiba ou Atibaia, entrou "Na hora do almoço", de Belchior, composta lá pelo começo dos anos 70, em versão mais recente de Belchior e Ednardo.
Meados dos anos 70 - Na hora do almoço e fantasiado de
super-homem um jovem poeta questionava as"boas
tradições" da família patriarcal. 
          Comentei como aquela música tinha sido essencial para a redação da minha tese. Para além dos 90% de transpiração e leitura de documentos e textos diversos, entravam os 10% de inspiração e "Na hora do almoço" parecia catalizar uma espécie de sensação de "atmosfera" como se me traduzisse o sentimento de uma família patriarcal, para além dos dados "objetivos" da pesquisa documental. Eu devia tê-la ouvido várias centenas de vezes enquanto redigia aquelas linhas que hoje descansam pacatamente na estante das onze mil virgens da USP.
          O papo continuou. Falamos muito sobre as músicas, os músicos (Noel não deixou de participar da tertúlia) e o que mais viesse. Dona Maria I, a louca, os visigodos e a guerra franco-prussiana tiveram seu pequeno quinhão. Paulo nos atentou para a beleza contida em "paletó de linho branco, que até o mês passado, lá no campo ainda era flor", imortalizados em "Mucuripe". E lá se foram São João del Rey, Tiradentes, Congonhas do Campo, Ouro Branco, Mariana, Santa Bárbara, Santa Rita Durão e assuntos mil sobre coisas mil. Em Santa Bárbara soubemos muitas coisas sobre o ex-Presidente Afonso Pena, filho daquela cidade e apelidado de Tico-tico, dada a braveza do velhote, cuja foto enfeita as páginas dos livros de História (pelo menos enfeitava quando os livros de História falavam coisas menores como Presidentes e Reis). Na estadia numa Pousada, creio que em Tiradentes, assistimos bestializados (apud Aristides Lobo, outro também devidamente defenestrado dos livros e das aulas de História) um desse programas de rituais de sofrimento e humilhação (entre uma dezena de outros desse mesmo jaez) capitaneado por Roberto Justus e conversamos sobre como o ser humano pode se degradar espiritualmente a pontos inacreditáveis quando o tal do dinheiro fala e comanda.
          Mas voltemos a assuntos mais amenos.

Igrejas das Mercês e Perdões (de Baixo), São Francisco e torres da Casa de 
Câmara Cadeia e Nossa Senhora do Carmo:vida que fervilha desde antes 
desses monumentos e que existirá bem depois.  
   
          Na última noite resolvemos vagar pelas ladeiras de Ouro Preto. A cidade estava meio parada e resolvemos bater perna a esmo, quando ouvimos o som muito estranho vindo do alto da torre sineira da Igreja do Rosário. Era uma badalada incomum, bem apressada e numa hora já meio tarda.

Uma legenda pra perguntar se precisa de legenda. 
      Ao pé da torre gritamos para o sineiro se aquilo era incêndio ou alguma emergência. Encarapitado lá do alto um rapaz gritou que era um ensaio.

 
Os sineiros garantem um portentoso espetáculo. 
            - Ensaio de que? Para que?
           Atenciosamente, o rapaz desceu e nos     explicou que era aluno de música (da Unicamp?) e que estava ensaiando com os sineiros para um  concerto de sinos que haveria alguns dias depois, regido por um Maestro espanhol ou  coisa assim.
        Ficamos empolgados e pedimos para  acompanhá-lo, no que ele assentiu gentilmente.  Dali seguimos para outras duas Igrejas: a das  Mercês e Perdões (de Baixo) e a de São  Francisco. Subir naquelas torres à noite, ver a  cidade toda acesa e suas ladeiras se  esparramando pelas montanhas escuras, ouvir  os sinos tocar lá do alto foi coisa indescritível.  Na Igreja de São Francisco pudemos ver o  maravilhoso teto pintado pelo Mestre Ataíde à  meia luz, coisa que dispensa qualquer palavra.  No topo da torre franciscana o ensaio corria    solto, quando o estudante de música nos disse  que o sineiro, um meninote de uns 14 anos, faria  um improviso de rock. O garoto amarrou uma  corda em cada dedão do pé, pegou uma corda  em cada mão e outra com a boca e "desceu o  sarrafo". Precisa dizer algo mais?
     
         Extasiados com a experiência transcendental, lá fomos levitando para uma pizzaria muito interessante da cidade. Quem disse que a coisa havia acabado por aí?
          Ao entrarmos, logo na segunda mesa à direita, estava ele, o próprio Belchior, acompanhado por duas moças e um rapaz. A pizzaria estava meio vazia àquele horário e nos sentamos a umas duas ou três mesas de distância, para não atrapalhar a privacidade daquele pessoal.
          Conversa vai conversa vem, lá voltam os sinos e retorna Belchior. Os assuntos se seguiam até que Paulo inopinadamente se levantou, dirigiu-se à mesa, cumprimentou as pessoas e disse ao cara:
          - Gostaria de cumprimentar o grande Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes!!!
          O cara tomou um susto:
          - Você sabe meu nome?
          E antes que o cidadão se recompusesse, Paulo ainda emendou, apontando para a minha pessoa:
          - E aquele meu amigo escreveu a tese de doutorado ouvindo sua música "Na hora do almoço"!!!
          Belchior ficou ainda mais surpreso e nos chamou à mesa. Conversamos uns dez minutos e ele quis saber sobre o que era a tese. Falei de "Na hora do almoço", "A palo seco" e várias de suas outras músicas, que pacienciosamente ele ouviu (já devia ter ouvido divagações e besteiras desse tipo tantas vezes). Pediu-me um exemplar de um artigo resumido que eu havia publicado pouco antes. Deu-me seu contato num guardanapo, com uma letra digna de um esmerado calígrafo. Dias depois mandei o material e guardei o guardanapo em algum lugar e gostaria de postar a sua imagem aqui, mas não o encontrei no meio do papelório da vida.
Belchior...
          Um tempo depois, descobri uma comovente pérola chamada "Pequeno perfil de um cidadão comum", cuja autoria Belchior compartilhou com Toquinho e que me parece uma bela imagem compassiva da vida do trabalhador que moureja dia a dia, sol a sol "vivia o dia e não o sol, a noite e não a lua", e cuja dignidade não cabe na mente dos produtores e fãs de reality shows que tem nos rituais de humilhação o seu prato predileto. Essa lógica do "no time for losers" não caberia bem nas mensagens de Belchior, pelo menos penso eu.
          Recentemente enviei essa música para os amigos, recomendando uma atenta audição em tempos nos quais os direitos são escandalosa e descaradamente roubados pelos donos dos privilégios e golpistas políticos e empresariais de plantão, sob argumentos pífios, aos quais falta a mais elementar honestidade e nos quais sobeja o mais deslavado cinismo já nascido na face da terra, enquanto sonegam impostos - por que os sindicatos não divulgam amplamente um sonegômetro para mostrar de onde vem o tal "rombo"? - e se locupletam com o bem-bom da vida, deixando à maioria o "direito" de serem seus escravos: reais e virtuais.
          Lá se vão alguns anos que parecem tantos na história da vida e são tão poucos na história do mundo. A vida mudou bastante e seu lema "amar e mudar as coisas me interessa mais" parece cada dia mais atual, necessário e mesmo urgente. Belchior deixou a vida e nos legou um grande tesouro musical, de rara sensibilidade para nos fazer pensar em tempos de tanta intolerância, apologia da estupidez, violência material e existencial, além da brutalidade pura e simples: as notícias de mais um massacre de indígenas e de trabalhadores rurais sem-terra ou a ação de fascismo soft & light da prefeitura da pauliceia desvairada, nos dias que se seguiram ao seu falecimento não nos deixam esquecer o compromisso imperativo de "amar e mudar as coisas". Pude agradecer pessoalmente a Belchior sobre como suas músicas tinham influenciado a minha visão de mundo. Agora, nessa modesta homenagem, gostaria de fazê-lo publicamente (além de a Edson Joaquim e Paulo Valadares, que generosamente custearam o assunto dessa postagem).

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Criemos história onde ela não existe!!!


Exórdio: Em nossa puerícia, aprendemos que em 19 de Abril se comemorava o Dia do Índio. Era muito interessante nos fantasiarmos de curumins apaches do século XIX, enquanto, sem sabermos bem, lá nas brenhas, a nossa avançada civilização exterminava os índios que ainda cometiam a ousadia de viver no mundo contemporâneo. Pouco depois, já mais crescidinhos e em outras paragens, aprendemos que certas elites locais lucravam bastante em criar uma mitologia na qual se diziam descendentes de “princesas indígenas”, como, data vênia, a tal Bartira, cujos ilibados netinhos se esbaldaram em promover a famosa “A milésima segunda noite da avenida Paulista” – tão bem e objetivamente reportada por Joel Silveira, num texto cuja nossa redação recomenda vivamente aos incautos leitores dessas tortuosas linhas –, bem como outras efemérides dignas de nota nos Anais da Nossa História Pátria. Vale dizer que quando eles promovem certas trapalhadas, ousam a chamá-las de “programa de índio”. Fica aqui a indagação de se os índios seriam tão tolos em entrarem nessas engazopadas. Enfim, nesse sutil jogo entre inovação e tradição, lembremos que “as ideias dominantes de uma época sempre foram as ideias da classe dominante" (Marx e Engels).


Dedicado aos que, negando a relatividade da vida, se refugiam no relativismo-totalitarista.    


                Corria placidamente o ano da graça de 1991, quando se anunciaram grandes portentos na metrópole cafeeeira. Após detidas negociações, o então Burgomestre local obtivera do Suserano dos Suseranos do Planalto Central o comodato, por várias décadas, de um grande imóvel onde se estabeleceria um vistoso parque público local. O imóvel, que englobava a sede e os terrenos próximos de uma velha fazenda de café, há longo tempo alienado de seus antigos proprietários por um órgão federal e entrevisto de longe pela população do burgo, despertava curiosidade pelas lendas que corriam em torno de si.
                À época, estávamos como bolsistas iniciantes do projeto de instalação de um inovador Museu, que prometia estabelecer uma concepção mais arejada da história local. Além da nobreza da terra, o Museu se propunha a preservar as histórias das pessoas comuns, ou seja, daqueles supostamente não bafejados pelos “talentos de nascença”, que, sem dúvida, marcam indelevelmente as faces dos escolhidos pelo destino para governarem aquela boa terra, como, de resto, todos aqueles que governam todas as boas terras em todos os tempos e o fazem sempre pelos seus talentos inatos. Não concordam distintos e escassos leitores?
                De imediato, fomos convocados, uma equipe de quase 15 pessoas, a integrarmos uma monitoria que atenderia os visitantes ao parque no dia de sua inauguração. Seria uma festividade inenarrável, com direito a uma parte de cerimônia solene e fechada para as autoridades – digamos, a “elite ilustrada” local –, e outra parte com a apresentação dos quatro integrantes de “Os Parlapatões”, o mais célebre programa telehumorístico da pátria de chuteiras, destinada para o vil povaréu na entrada do novo parque.
                Dias antes, nos dirigimos para a primeira reunião da equipe, no próprio local do evento, para obter as primeiras instruções e fazer os devidos levantamentos de informações visando o atendimento aos visitantes. As coisas pareciam bem normais até darmos de cara com um de nossos informantes, o antigo zelador, que atendia pelo angelical nome de Seu Ângelo, e que vociferava cobras e lagartos contra o que estava em andamento.
                Inicialmente, o querubínico zelador nos informava que havia nascido na antiga casa grande da vetusta fazenda, que havia sido demolida e reconstruída uns vinte anos antes, para dar lugar a um pretenso Museu do Café que jamais havia funcionado e que, por sua vez, dera lugar a uma espécie de repartição informal para inconfessáveis negócios sob as bênçãos do Instituto Tupiniquim do Café, recém-extinto por aqueles dias. Ato contínuo, à época, muitas famílias da nobreza cafeeira local haviam doado móveis para o tal Museu que foi sem nunca ter sido, mas eles acabaram funcionando para acolher lobistas e políticos de plantão, que usaram o casarão e seus móveis como rendez-vous para honoráveis negociatas, com direito a dançarinas noturnas e animadas festividades pelas altas madrugadas, onde abundavam bebidas espirituosas e colóquios não tão espirituais assim.
                Outrossim, dias antes do Suserano do Planalto consignar a concessão do casarão ao município, uma decoradora de sua residência particular havia dado uma passadinha por lá e arrematara a melhor mobília lá existente para uso do Grande Senhor (que havia acabado de reformar sua espetaculosa mansão), deixando em troca sofás puídos e bufentos, cadeiras desarranjadas, camas em petição de miséria, enfim, pouco sobrara do acervo do Museu que fora animada casa de diversões por duas décadas. Basicamente, a mobília de um quarto e um grande jogo de mesa e cadeiras, para 24 lugares, feito 20 anos antes para o Museu e que pretendia imitar uma suposta mesa antiga, talvez do autêntico medievo brasiliano. Seu Ângelo estava indignado e bradava aos quatro ventos o rol dos escândalos que vira naqueles 20 e tantos anos, foi um festival que daria profuso material para o saudoso Petrônio compor um novo mais ousado Satiricon.     
                Ainda sob o impacto das trombetas angelicais do velho morador, os assustados monitores ingressaram no salão principal, onde encontraram uma numerosa equipe de seguranças, artistas, burocratas, aspones, todos dirigidos por uma pressurosa e chibante Chefe de Cerimonial, que deu as coordenadas do trabalho. Prontamente, designou os lugares e funções de cada um e sobre nosso grupo se pronunciou:
                – Aqui estão os nossos historiadores para fazer o entretenimento das autoridades.
                !!!??? Entretenimento das autoridades??? Que diacho era aquilo???
                Deixamos o lugar completamente embatucados e confusos. O que nós, os seguranças, os aspones e “Os Parlapatões” faríamos, enfim? Que comédia era aquela? Como fazer uma monitoria minimamente decente para ‘entretenimento’ das autoridades? Ora, a coisa não parecia das melhores.
Decidimos ir ao Museu Histórico, à Biblioteca Municipal e outros acervos da cidade, a fim de colher todas as informações possíveis sobre a antiga fazenda, para podermos fazer um trabalho minimamente digno.
Casarão atual, em petição de miséria. O antigo foi demolido e outro
foi construído em seu lugar, para garantir maior "autenticidade"
histórica. Durante anos abrigou o Museu da "farra cafeeeira"
e nessas escadas se realizou o simulacro da "primeira missa".   
Ao fazermos os levantamentos, não topamos com nada de história no sentido de “herança do passado distante e supostamente glorioso dos bons tempos do Settecento e Ottocento, com nhanhãs e nhonhôs abanados e acarinhados pelas suas amorosas mucamas”, o que havia era o terreno de uma antiga fazenda, cujo casarão havia sido demolido e substituído por uma suposta casa de fazenda no estilo colonial norte-americano digna de revistas de moda dos anos 1970 [com direito a cozinha azulejada com coifa e modernos equipamentos “coloniais”], com um ex-quase-futuro Museu que havia servido de casa de tolerância noturna político-empresarial, com móveis deixados da reforma da espetaculosa mansão do Suserano do Planalto, do qual sobrara muito pouco. Havia uma história, mas toda ela era bem recente e se resumia a um pitoresco escândalo, que daria um ótimo entretenimento para a pornochanchada nacional.
Que fazer?
A equipe se dividiu: uma parte considerava que deveria rasgar o verbo e dizer com todos os pingos em todos os iii o que se tinha pintado e bordado ali. Outra parte considerava necessário tentar falar um pouco sobre o processo histórico referente à antiga fazenda. Diante do impasse e do dia da inauguração chegando, a equipe estava reunida após polêmico almoço, numa alameda dos jardins do casarão, quando apareceu inopinadamente o burgomestre local, antigo e respeitado lutador dos tempos contra a ditadura. Ele foi apresentado aos dublês de historiadores-entretenedores e, emocionado, perguntou:
– Não é uma beleza, a nossa história?
Silêncio profundo e consternado, quebrado por esse desocupado que soltou de supetão:
– Bonito até que é, mas é pena que tudo é falso.
– Como??? Falso!!!??? [burgomestre assustado e pálido]
– Pois é [historiador-entretenedor em tom petulante e com peçonha escorrendo pelas quelíceras escorpiônicas], tudo falsificado durante a ditadura, era um antro de escândalo e corrupção...
O homem ficou pálido, meio esverdeado e desnorteado. Deve ter se perguntado intimamente: Como eu vou dar um presente à cidade e esse tratantezinho vem com uma dessas? Mas, ante seus anos de experiência e militância e recuperando o élan, saiu-se com esse axioma válido para toda a historiografia universal:
– Não, não vamos falar desses tempos infelizes, isso não é construtivo. Melhor passar no Museu Histórico e trazer uns objetos para cá, criemos história onde ela não existe!!!
Silêncio nervoso e aumento da tensão na equipe...
Que fazer?
Após longas diatribes entre a equipe de historiadores-entretenedores, chegamos à seguinte solução de compromisso:
No salão de entrada, adornado com a mobília “vencida” da mansão lantejoulante do Suserano, contaríamos o que acontecera com a casa na ditadura, o horror dos escândalos. No salão intermediário, com a grande mesa para 24 pessoas, daríamos algumas informações sobre a antiga fazenda, o que seriam complementadas num dos quartos dos fundos, no qual estava a única mobília não levada para a Capital Federal. Fizemos uma limpa no que havia de mais cafona e de pequeno porte, a fim de não haver tumulto ou material afanado no meio da multidão que visitaria a casa no dia da inauguração. No cúmulo da cafonalha vinda do Planalto, pontificava um horroroso tapete sintético de zebra, sobre o qual Elke Maravilha e Falcão bem poderiam dar um recital dadaísta de poesia parnasiana. Fechamos vários quartos e preparamos um esquema de circulação. De acordo com o cerimonial, na parte da manhã haveria uma visitação restrita às autoridades e à tarde, logo após o meio-dia, o povão entraria após o show dos Parlapatões.
Ainda na véspera do grande evento, o Suserano dos Suseranos visitou o Burgo e foi recebido com toda a pompa e circunstância devidas. Na festiva ocasião, o ex-Burgomestre local e então representante na Câmara dos Comuns, perpetrou um golpe político (coisa que seu partido aprendeu a fazer desde lá e se aprimorou na prática), anunciando a ampliação legislativa, por iniciativa sua, do comodato federal para 99 anos, o que lhe valeu os rasgados elogios de “chupim” e “vira-bosta” por parte do então mandatário da cultura local, um dos homens de maior confiança do atual Burgomestre e que foi reproduzido em profusão nas folhas noticiosas (por que não, facciosas) locais. 
Os cabelos do regente por pouco
não causaram um grande forfé
durante a solenidade.
Finalmente, o dia 14 de Julho, o céu amanheceu sereno, com o azul profundo do hino nacional, e chegamos cedo para entreter às distintas autoridades. Para nossa surpresa inicial o Cerimonial preparara como entrada uma Missa ecumênica e solene nas escadarias do casarão, que supostamente relembraria a “Primeira Missa” de fundação da Cidade, digna de ser pintada por um Victor Meirelles local. Em meio ao absoluto pastiche (lembremos, só de passagem, que na colônia não tinha esses papos de ecumenismo não), direito a farta ficção historiográfica, com adulação ao fundador da Urbs, discursos grandiloquentes, coisa que extasiou nossas mais delirantes fantasias. A culminância se deu quando o Coral de uma Igreja local entoou um celestial canto, dirigido por um jovem maestro com cabelos em forma de corte de pelo de Poodle. Tive essa visagem e perguntei às pessoas das proximidades: que Poodle é esse? Foi um corre-corre para as moitas vizinhas, para a risadagem não estragar a cerimônia.
Enquanto se ouviam ao longe os acordes das músicas e as piadas dos Parlapatões que divertiam o populacho, os discursos das autoridades se sucediam. Foi, então, descerrada uma fita e as autoridades locais ingressaram na casa, na qual os historiadores-entretenedores já se encontravam para a competente explicação.
Nenhuma autoridade se interessou muito pelas nossas exposições e a maioria ficou vagando embevecida pela casa, comentando sobre sua antiguidade, como o passado era belo e coisas do gênero, ou degustando ao acepipes servidos à fina elite, quando uma distinta jovem senhora, de vinte e poucos anos, recém-esposa de um ex-mandatário da cultura local, homem septuagenário que servira à cidade em tempos de antanho (leia-se, da ditadura), quis porque quis abrir um dos quartos, onde deveriam se esconder tesouros dignos de Ali Babá e do Vaticano. Instado pela digna senhora a abrir o tal quarto, disse que não podia e que apenas havia nele objetos sem maior valor. Isso aguçou a curiosidade da distinta – a essa altura secundada por suas colegas de coluna social –, que exigiu que eu desse um jeito. Solicitei a um segurança a abertura da porta do quarto, no qual estava cuidadosamente guardado o horroroso tapete sintético de zebra, que realmente embeveceu a condessa e suas colegas da alta cultura da alta society local. Encantada, a fidalga me advertiu maviosamente:
 – E você queria nos privar de ver essa antiguidade? Que beleza!!! De quem terá sido?
Incontinenti, respondi:
– Pois não, é do século XVIII, pertenceu ao fundador da Cidade, que fez um safári na África para descasar após à fundação...                                                                                                                 
Raríssimo tapete sintético de zebra,
caçado em aventuroso safari pelo 
mui digno fundador da urbs, no 
epílogo do SettecentoMais um furo 
de reportagem das Diatomáceas.
A notícia causou o maior frisson, foi um verdadeiro encanto, o tapete transformou-se de imediato na vedete da exposição. Os poucos que sabiam que aquilo era uma deslavada mentira, se dividiram entre o sorriso divertido e a fúria pelo vexame cultural perpetrado em torno daquele testemunho da zebrice humana.
Onze horas da manhã, uma hora antes do previsto, o Burgomestre havia tomado uns drinks e foi ver o populacho, tendo se comovido até às lágrimas com o fervor cívico da multidão entretida pelos Parlapatões. Ante intensa emoção, mandou abrir os portões do Parque para o povaréu entrar no lugar como uma massa humana que se espalhou pelas aléias do parque e se dirigiu em grossas colunas para o casarão, sobre o qual se difundiam lendas de décadas sobre fantasmas de senhores e escravos que haviam habitado aquelas paredes, sobre antigos cavaleiros medievais que haviam lutado justas no seu pátio. No reino da cultura histórica, era um vale-tudo e se alguém dissesse que a própria Cleópatra Filopator passava temporadas de inverno por lá, seria até bem normal.
Ao ver as massas se movendo para o casarão, as autoridades esqueceram os acepipes e a zebra colonial e meteram sebo nas canelas, se evadindo de lá num soluço. Tivemos de ir às pressas para a porta do casarão, com os seguranças, para impedir uma verdadeira invasão da multidão, sequiosa por histórias de papas, cavaleiros andantes, gnomos ou o que mais pudesse haver ali. De megafone na mão, tentamos negociar a ordem de entrada, organizando as filas e determinando a entrada de 50 em 50 pessoas, para viabilizar o fluxo do público e a monitoria (leia-se, entretenimento histórico) aos visitantes. Antes de entrar o primeiro grupo, recolhemos prudentemente o raríssimo tapete de zebra, o qual jamais voltei a ver, para gáudio de minha retina aterrorizada com tamanha cafonice.
O fluxo de gente era inacreditável, tivemos de ampliar os grupos de 70 em 70 e de 100 em 100, para vencer a multidão. O caos era absoluto. Aos falarmos das sacanagens ditatoriais logo no salão de entrada, o pessoal chegava puto da vida nos salões seguintes, se queixando que na primeira vez em que iam ver a “história de verdade”, ela era mentira!!! Ao chegarem ao quarto no qual haviam sido informados que havia um resto de mobília do natimorto Museu do Café, vociferavam contra a ditadura “que havia dormido naquela cama”, como se a personificação da própria ditadura fosse uma criatura vivente de carne e osso, muito embora naquela casa abundasse muita carne para pouco osso...
Lá pelas três da tarde, num intervalo para deglutir às pressas um sanduba providencial (que não pudemos comer na hora devida dado o rompante do Burgomestre), os seguranças se propuseram a nos substituir na monitoria, porque eles já tinham visto tudo e sabiam de cor o que dizer. A fome nos aconselhou a aceder àquela generosa sugestão. Fui para o segundo salão – o da mesa que já tinha virado do Rei Artur – e sentei com Geraldo e Lorette num recanto para comer o sanduba, quando um senhorzinho sentou emocionado numa daquelas cadeiras de espaldar alto e perguntou para todos:
Cadeira de espaldar cujo
simulacro serviu ao
honorável Marquês e à
distinta plebs local. 
– De quem terá sido essa cadeira?
– Do Marquês de Tria Fluvius, ilustre capitalista local do século XIX – disparou o chefe dos seguranças para a sala atônita...
Formou-se uma ansiosa e gigantesca fila para sentar na tal cadeira do Marquês, para gáudio da audiência...
Lá pelas cinco da tarde, tentávamos fechar a casa para a multidão que
No vale-tudo da historiografia da
multidão, o Protomártir da Independência
haveria placidamente desencarnado
numa cama como essa. A ditadura dormiu
na mesma durante duas décadas.
ainda se aglomerava e alguns iam trazer amigos para sentar na cadeira do Marquês, conhecer a cama onde “morrera Tiradentes” (sic.), ver os fantasmas dos escravos, saber de coisas impublicáveis nessa pudica folha; enfim, a essas alturas a multidão e os seguranças literalmente assumiam o poder historiográfico e escreviam a história que desejavam. Só nos restava, pobres historiadores-entretenedores, acompanhar a dinâmica do falatório e anotarmos o que era possível.
Às cinco e meia, ante protestos gerais, conseguimos fechar o casarão, prometendo que ele abriria tão logo para a visita popular. Safos pelo gongo e pela ação rápida dos seguranças, que haviam assumido o comando do delírio histórico que tomara conta das últimas horas do evento.
Mais tarde, no mais tradicional bar local, comendo o mais tradicional sanduíche local e bebendo o mais tradicional chopp local, nos refestelávamos com as histórias surgidas entre as autoridades e a multidão. Ipso facto, concluímos que o nosso velho e sagaz Burgomestre tivera razão, a história acabou sendo criada onde ela não existia, ou, pelo menos, ela não era exatamente o tesouro das relíquias do passado e consistia mais na relação que com ele resolvemos estabelecer, a zebra sintética não nos deixa mentir.            

sexta-feira, 31 de março de 2017

Aventuras em um fusca 76 na Pauliceia 93

Antes de mais nada, uma Nota de Esclarecimento da Redação.


                Prezados e escassos leitores. Esse Blog foi imaginado como espaço destinado a ideias ociosas para horas preguiçosas. Bom, as horas preguiçosas foram postergadas para sabe-lá-deus-quando, apesar do direito à preguiça continuar vicejando entre a mais alta elite da nação... Quanto às ideias ociosas, creio que nos faltou o devido humor para elas. Sua condição era a graciosidade, mas o fel amargo e o labor combativo haviam tomado o lugar da tinta da escrita, motivado pelo festival de horrores da burrice militante que nos assombra nos últimos anos (o sapiente Stanislaw Ponte Preta poderia dizer que estamos vivenciando um verdadeiro FICOAPÁ - Festival da Inguinorância Coxinhesca que Assola o País). Não havia lugar para as Diatomáceas, ou melhor, não há. Mas, pelo menos, algum sorriso nos resta como arma de defesa, porque todo o mal-humor (não confundir com tristeza) é sintoma de incurável estultice. Nessa data em que relembramos um fato aziago para os anais de nossa história, voltamos depois de mais de quinhentos dias. Esperamos encontrar algum ânimo para diminuir substantivamente essa periodicidade.

Vamos lá ...

                Era época do tal Plebiscito da Monarquia e o grupo de quatro expedicionários –  Mirza Pellicciotta, Edson Joaquim, Antônio Lorette e esse que rabisca essas linhas –, embarcou em Campinas, lá pelo início da manhã, no fusqueta 76 pertencente à primeira expedicionária e dirigido por vosso cronista. Missão: uma pletora de atividades na cidade, que implicava numa pesquisa na Biblioteca Mário de Andrade, a procura de uma tal Rua Anhaia, uma aula de Mestrado na FAU-USP, que tomaria todo aquele movimentado dia. O que não se esperava é o que não estava esperado...

O famoso edifício em forma de 'S', cenário de uma das
muitas confusões de um desses longos dias.  
                Ao chegarem à região central da urbs piratiningana, depois de um perde-encontra complicado, encontraram uma providencial vaga de estacionamento ao lado do famoso Edifício Copan (para quem não é de São Paulo, aquele famoso prédio em forma de “S”), bem atrás de um carro com placa de Esperança-PB, terra da progenitora de vosso humilde redator. Um sorridente comentário sobre a coincidência, alguns passos em direção à Biblioteca e tudo parecia com aqueles cálculos de física escolar, em CNTP (condições normais de temperatura e pressão).
                Após a combinação de alguns detalhes, tive de deixar o restante dos expedicionários na Biblioteca e sair para os lados da Avenida São João, perguntar onde ficava a tal Rua Anhaia, para procurar um equipamento eletrônico oportunamente solicitado pelo meu irmão. Anda praqui, anda pralá, cheguei a uma Pastelaria ou coisa do gênero no Largo do Paissandu, àquela altura fervilhando de gente. Indagação dirigida ao gerente do estabelecimento, atrás de seu indefectível balcão de inox, ele retransmite a pergunta a um freqüentador do estabelecimento:
                – Rua Anhaia, bom, não sei. Tu sabes Pedro?
                – Rua Anhaia???...

O filósofo-jurado e seus famosos lírios.
                Como se se abrissem as portas da esperança, vira-se o próprio, o inenarrável filósofo Pedro De Lara, que desatou um caudal de explicações detalhadas sobre a tal rua e as opções para nela chegar. Confesso que perdi completamente a noção da geografia urbana, divertido com a magnitude de tal informante. Ele existia... não era apenas um ícone dominical... seus lírios brancos!!!... estava ali, ao vivo, comendo pasteis no Largo do Paissandu... tudo o mais tinha perdido o interesse.
Magnum Opus - contém preciosidades como
'É burro demais, quem dá topada e cai pra
trás." ou ainda "A PRIVATIZAÇÃO será a
nossa ESCRAVATURA."
                Delongas depois, ao saber que a tal Rua não ficava perto o suficiente para ir a pé, ouvidas as sábias ponderações de De Lara, resolvi pegar o fusqueta lá no Copan, para ir atrás do tal componente eletrônico. Poucos minutos após, à frente da Mário de Andrade, encontro Mirza lavada em prantos. Havia ido pegar alguma coisa no carro e descobriu que o mesmo havia sido miseravelmente roubado.. oh vida... Bom, calma, vamos lá.
                Chegando ao local, estava incólume o brioso veículo, atrás do carro esperancense, tal e qual havia sido deixado mais cedo!!! Como?
                Bom, como já dito ao atilado leitor, o Copan tem forma de “S” e sua proprietária tinha procurado na “perna” oposta da sinuosa letrinha... Novo choro, de descarrego, e crise de asma, resolvida providencialmente numa farmácia das cercanias.
                Após tantas emoções, a expedição à Rua Anhaia foi abortada para as calendas gregas e o finalzinho da manhã, boquinha da tarde, foram tomados pela conclusão das atividades na Biblioteca. Agora, com a tarde (e a fome) avançando, depois de um engarrafamento básico e mais um vai-e-volta pelas ruas, chegamos à Aclimação, no simpático Fellini, de Miltinho, para filar um almoço lá pelas três e meia, quatro da tarde. Excelente comida, alguma conversa com Dona Giselda, uma olhadela nos quadros e fotografias da casa/restaurante, lá fomos para a Rua Maranhão, onde Lorette teria aulas no Mestrado em Arquitetura, enquanto os três outros membros da expedição dariam trela às suas horas ociosas.
                – Que tal conhecermos o Mackenzie?
                – É, lá foi o reduto do Comando de Caça aos Comunistas em 68, no quebra-pau com o pessoal da Maria Antônia, vamos ver se a direita ainda anda aprontando alguma coisa por ali.
                Nas dependências do Mackenzie, horário de entrada do noturno, centenas de jovens preocupados com seus horários de aula e pouco preocupados com comunismo, CCC e coisas desse teor. Talvez a prova de um professor carrasco preocupasse mais aquelas mentes estudantis.
                Feitas algumas andanças e sem aventuras à vista, tive um flash.
                – Aqui perto fica a sede da TFP, vamos pra lá? Depois, lá por perto tem uma tal padaria judaica, com uns pães doces de primeira.
                – Ôba, vamos ver, é um casarão impressionante, com aquele estandarte pendurado...

A portentosa sede da TFP, à época um dos bastiões da
campanha monarquista. Cerrou fileiras com o historiador
José Murilo de Carvalho e muita gente sabida.
        Três ou quatro quarteirões adiante, lá estávamos às portas da Sociedade Brasileira para a Defesa da Tradição, Família e Propriedade, bisbilhotando sua fachada, quando uma porta se abriu, um monte de seguranças saiu e vieram de seu interior o fundador Plínio Correia de Oliveira e os herdeiros dos Bragança, engajados de corpo e alma na campanha monarquista.
                Havia lido há pouco tempo antes “Os guerreiros da virgem”, obra de um ex-membro da TFP e que tecia fortes críticas àquela entidade. Não me contive e disse a meia voz:

                – Olha lá, Dominus Plínius e os donzelos Bragança!!!
                Mirza, curiosa, perguntou:
                – Qual deles é o Plínio?
                Edson Joaquim, assumindo o protagonismo da cena, apontou com o dedo indicativo:
                – É aquele.
                Sabe-se lá de onde, um leão-de-chácara de paletó branco, brutamontes mal encarado, com o fervor de um guerreiro da virgem, veio enxotar aqueles viandantes enxeridos.
                – Catso!!! (o original foi em português), vamos apanhar feito mala velha. Vamos tocar daqui.
                Correr? Bom, se os três metessem sebo nas canelas, um acabaria nas mãos do cofre de banco ambulante e tomaria na tampa. Muita calma nesse momento!!!
                – Vamos andar rápido e juntos, sem correr, se ele nos pegar, pelo menos com três dá pra dividir a surra... Se fica um pra trás, ele amassa...
                – E se a gente entrar na FAU?
                – Aquele negócio ta vazio nesse horário, ele acaba nos pegando e ainda dá uma surra no Lorette de vale-brinde...
                Risos nervosos e suor gelado... murmúrios de angústia desconsolada... uma pisa, que merda... Tempo imponderável, só o espaço existia... Um quarteirão... Dois quarteirões... Andando rápido e em ordem unida – sem correr, sem correr – e o brucutu atrás, putzgrila...
                – Vamos pro Mackenzie, nesse horário ta cheio de gente e vamos nos esconder por lá.
                Portas do Mackenzie, acolhedor porto seguro para nossa paúra... O antigo antro dos anticomunistas era o refúgio dos foragidos da perseguição têfêpêana vinte e poucos anos depois... oh paradoxos do universo!!!
Naquela noite, o Mackenzie se tornou nosso
acolhedor porto seguro. 
                Ficamos por lá uns 20 minutos. De longe e à socapa, víamos o guarda-roupas da cristandade andando na calçada de um lado para o outro, como um autômato ameaçador.
                Cansado de procurar os subversivinhos, o cruzado moderno saiu de maus bofes em direção à sede de sua entidade, certamente contrariado por não ter podido nos supliciar num tripálio ou, pelo menos, aplicar uns sonoros e doídos bofetes naqueles comunistinhas que apontavam o dedo para o excelso chefe.
                Fomos nos aproximando lentamente da FAU, espertos para ver se a jamanta não havia montado uma arapuca. O plano era resgatar o fusca, Lorette, e batermos perna dali (apesar da situação ser mais para o Salvador Dali).
                No fusca, respirando aliviados e narrando a incrível travessia para Lorette, ainda conseguimos passar na tal padaria, nos refestelando com seus famosos pães doces.
                Sei-la-que-horas da noite chegávamos incólumes a Campinas, depois de um dia desses pra não esquecer. A vida seguiu, mais ou menos aventurosa, há dias de paz, há dias de guerra, há dias de sol, há dias de chuva, mas, vamos lá, Pedro de Lara e TFP num dia só não é coisa pra só um dia.            


* Para os corajosos expedicionários que arrostaram os perigos dessa arriscosa jornada e para o fiel fusquêta que nos transportou em segurança pelas furiosas procelas paulistanas.