Desde os anos 80 pensava em criar um jornaleco com esse nome. Destinado a ideias ociosas para horas preguiçosas.
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Sou apenas mais um desinformado
De acordo com os brilhantes critérios "sociológicos" do intelectual neoliberal estadunidense FHC (essa sigla significaria algo do tipo Flúor-Hidro-Carboneto?), me enquadro parcialmente no universo dos desinformados, essa nova categoria que vem sacudir os céus da sapiência nacional.
Nordestino da Paraíba, caio como uma luva nessa definição. Mas, como porto um título de Doutor pela Universidade de São Paulo e me situo numa faixa de renda acima da designada por ele, esses dados discrepam e me agregam, talvez, numa categoria intermediária de semidesinformado, muito embora não saiba se tal definição se enquadre na rígida doutrina desse douto senhor.
Ah., assino TV a Cabo, na qual passa um tal de Manhattan Connection, programa no qual uma espécie de seita dos informados, diretamente do umbigo do cosmo, exalta tudo de bom que os States tem a nos oferecer - nesse preciso momento em que reviso o texto, mais um tiroteio em Escola demonstra essas altas qualidades da civilidade humana que temos de copiar, decorrentes do famoso sistema winners/losers - e, de quebra, ainda mostra para os brazucas que somos gente desinformada e de quinta categoria. Ah, tamném sei quem são os informados Miriam Leitão, Merval Pereira, William Waack e tanta gente sabida, que informam minuciosamente sobre qualquer eventual delito do atual governo, mas não tem esse mesmo zelo com outras notícias do mesmo jaez quando provindas de ninhos tucanos.
Sei, por exemplo, que um carro de um petista atropelou criminosamente um gato em Rorainópolis (interior de Roraima) e que a Bovespa caiu mais alguns pontos por causa desse tenebroso delito. Sei à exaustão que Zé Dirceu e sua patota foram condenados, aprisionados e merecidamente transportados de avião às pressas numa véspera de feriado nacional a fim de promover um espetáculo midiático-patrioteiro. Sei tudo sobre Pasadena, até mesmo o nome da cunhada do porteiro da entrada leste, que faz o turno das 08:00 a.m. às16:00 p.m. (fuso-horário da West Coast norte-americana).
Mas, como sou apenas mais um desinformado, gostaria de saber:
Onde foi parar o dinheiro da privataria tucana?
Qual o nome de pelo menos uma Escola Técnica construída na laboriosa gestão FHC?
Quantos estaleiros esse operoso governo criou no Brasil?
Qual o nome dos diretores e acionistas da Sabesp? Algum deles está sofrendo falta de água em casa? Qual o montante de seus lucros em tratar (ou destratar?) a água como uma mercadoria qualquer?
Quantos mensaleiros do PSDB e do DEM foram parar na cadeia? Algum deles está na Papuda? Pode receber visitas?
Como se deu a aprovação da reeleição de FHC? Foi apenas um Patriot Act?
Onde foi enterrada da grana subterrânea do metrô paulista?
Em que cadeia estão presos os responsáveis pelo afundamento da linha amarela do metrô, que levou a mortes e prejuízos para dezenas de pessoas?
Onde encontro uma passagem aérea para ir junto com umas empregadas domésticas e uns pedreiros para poder pousar no Aeroporto de Cláudio? O helicóptero de Perrela pousa lá?
Como foi o caos da Copa do Mundo?
Por que as notícias são veiculadas seletivamente? Por que o gato atropelado pelo petista criminoso no interior de Roraima gera manchetes bombásticas e os "leves e inocentes" delitos tucanos sequer são noticiados?
Por que, na campanha das "Diretas Já", o povo criou a palavra de ordem "o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo"?
Quais as providências adotadas para coibir a relação incestuosa e promíscua e entre tucanos e a grande mídia, tal como se viu na célebre conversa de Rubens Ricúpero e Carlos Monfort, que vazou inesperadamente dos estúdios da Rede Globo em Brasília?
Há tantas, mas tantas perguntas, que eu, apenas mais um desinformado, gostaria de ver respondidas. Poderiam essas luminosas mentes informadas me brindar com as respostas?
Para os moralistas de plantão: acho que todo delito deve ser punido rigorosamente e que os petistas que cometeram os mesmos devem mofar na cadeia, mas não entendo a falta desse mesmo zelo moral em relação a tudo que os tucanos promoveram no país e continuam a promover em São Paulo. Justiça, ou é impessoal e imparcial, ou é perseguição. A venda da deusa tem de estar abaixada à frente dos dois olhos... Moralidade é algo bem diferente de moralismo, viu neoUDN?
Ângelo Emílio da Silva Pessoa, apenas mais um desinformado.
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quarta-feira, 16 de julho de 2014
Coxinhas X Boys: a última fronteira da luta de classes.
Foi depois que as elites se revoltaram contra suas próprias
regras – que usavam para empulhar e impingir à “pobreza digna” mas que lhes
criava certos embaraços pela necessidade de dar o “bom exemplo” –, que adotaram
o lema “me deixem torrar meus milhões em paz e não me encham o saco”. Para
evitar reclamações, adotaram também o plano neo-buschiano de ataque preventivo
expresso no princípio “agrida os pobres antes que eles o façam”. A partir daí,
tocar fogo em mendigos ou obras de benemerência social desse quilate passaram a
ser normais e usuais nessa singular transvaloração de todos os valores.
Para
que os limites e as tais regras de gentileza e civilidade? Que bobagem esse
troço de respeitar crianças babonas, velhinhos decrépitos e pobres fedorentos? E
essa presepada de defender ecologia, índios, bichas e outras chatices do tipo? O
negócio é curtir adoidado gente bonita e endinheirada e cair na balada da vida.
Esse treco de bons modos e frescuras mais é coisa de fracassados. Para que
tratar bem fracassados e vir com essas besteiras de solidariedade que uns
padrecos e comunistinhas – que já deviam ter sido degolados ou incinerados pelo
governo ou pelo robocop – andam apregoando por aí? Bom mesmo é transformar
a estupidez em obra de arte, dar coices uns nos outros e deixar expandir todas
as sensações numa overdose tipo dez de adrenalina.
Daí,
surgiu o movimento dos coxinhas, que revoltado contra as regrinhas do bem viver
que os idiotas de seus avós haviam criado, resolveram jogar tudo para o alto e
passaram a praticar esportes mais adequados às suas índoles: espancamento de
pessoas indefesas nas madrugadas das cities,
ataques a garçons que demoram a atender, porrada em empregadas preguiçosas. Pra
que papai paga salário pra baranga e não quer me dar aquela Ferrari tipo último
tipo? Quer negócio é esse do governo gastar dinheiro de meus impostos (eu que
nunca os paguei) com esse povaréu imundo? E se eu mesmo não tenho essa gaita,
mas sei fingir com sinceridade e convicção?
Duas
regras básica do movimento são a depuração contínua e a cooptação irrestrita.
Em relação à primeira, vale sempre trairagem para com os fracos do próprio
movimento. Se algum desses babacas for pego ajudando uma velhota a atravessar a
rua, dando esmola a um pobre seboso, defendendo um fracote de apanhar ou
qualquer uma dessas imbecilidades, deve ser imediatamente tipo detonado,
escorraçado do grupo, deve ser pego na covardia pelos kamarada e apanhar feito
mendigo de rua:
– Vá lá se juntar com seus amigos
comunistinhas de merda, seu otário!!!
O movimento só tolera os
fortes...
Para a segunda regra, vale
aceitar qualquer um que tiver grana, venha de onde vier, seja amealhada da
forma que for – nem que seja um falso filho de dono de empresa aérea, falsa
socialite etc. Esses são até os melhores, porque mostram como se deve conduzir honestamente
nessa selva humana. Qualquer um que tiver a garra suficiente, a ousadia
necessária, a adrena no pico, deve ser imediatamente agregado ao movimento,
mesmo que depois possa ser varrido tão rápido como entrou. Que interessa se o
carinha foi pobre? O lance agora é que ele é rico e vestiu o nosso ethos: é contra governo, pobres,
bolsa-preguiça, velhotes, fracotes, pixotes e essa gente que só enche nosso
saco.
Rompido o solene “pacto de
proteção”, em consequência se selou a quebra do “vínculo de obediência”.
Do lado de lá da city, no meio da gentalha feia, os netos
da velha e boa “pobreza digna” aprenderam que os avós também eram uns otários
de marca maior. Pra que esse treco de estudar, tirar diploma, respeitar leis?
Se os coxinhas não tão nem aí, por que nós teremos alguma conduta diferente?
Essa coisa de maluco que os pobres terão lugar no reino dos céus e devem ser
solidários entre si é coisa de padrecos e comunistinhas. Que se danem!!!. O
negócio é curtir adoidado, bater o pancadão e mandar ver na porrada. Tudo pros
kamarada e fodam-se os outros.
Entre boys, expostos desde a
puerícia aos efeitos da agressão institucionalizada e mercantilizada, o negócio
não é mais criar essas leseiras de movimentos sociais, partidos, sindicatos,
centros comunitários e os tais mecanismos de luta social. Agora é virar horda e
detonar o sistema, muito embora o tal sistema não seja exatamente algo
identificável no horizonte de eventos: de preferência, algum idiota que nos
atravessar o caminho, esse é o sistema: pode ser um professor, uma enfermeira,
sei-lá-quem. Qualquer um que disser que eu tenho algum limite, leva um cacete e
vamo que vamo. Não vamo nem derrubar o tal sistema, apenas vamo tomar o lugar
de quem ta lá e vamo baixar o pau em que pensar ou fizer diferente. Afinal, boy
de hoje pode ser coxinha de amanhã...
Sem saberem bem, coxinhas e boys,
envoltos nessa feroz cadeia alimentar, se enfrentam rua a rua, quadra a quadra,
bairro a bairro... Nada da tal de ordem pública e essas coisas ridículas, o
negócio é cada um curtir o seu e o governo e os outros que se fodam. Na última
fronteira da luta de classes não há partidos, não há socialismo, não há regras:
há selvageria em estado pleno, com apoio entusiasmado dos mass mídia e agentes de mercado, que encontram nichos valiosos para
comerciar qualquer produto de ocasião.
De seu Gabinete de Altos Estudos Pomeranos, cercado pelo acervo de seus referenciais teóricos, o emérito sociólogo discorreu sobre o inquietante fenômeno (que não é bem um jogador de futebol).
Chamado para analisar o fenômeno,
o mundialmente respeitado sociólogo Emerenciano Virgolino constatou: “trancados
em condomínios fechados ou empurrados para as favelas, coxinhas e boys foram se
tornando vítimas-algozes do espaço pós-freyriano, no qual inexiste qualquer
zona de confraternização, não há equilíbrio de antagonismos, mas o antagonismo
em estado puro. Estão uns de frente para os outros, não há regras, não há
semelhantes ou respeito, há hedonismo agressivo do tudo aqui e agora, sem
limites, afinal, em breve coxinhas e boys ‘vão estar assumindo’ o comando da
bagaça – que besteira é essa de sociedade? – e o lance é descer o porrete em
quem não é da nossa turma”.
Coxinhas e boys têm idades
indefinidas (sejam meninos ou meninas), podem chegar aos 40 e manter a firme
infantilidade de adolescentes tardios. É para eles que vai ficando a terra
prometida, que haverão de transformar em lugar de paz, concórdia e silêncio
depois que liquidarem-se uns aos outros... e a luta continua...
terça-feira, 1 de julho de 2014
Dois Atos, algumas cenas e breves conclusões
ATO 1 (desprezada
a sequência cronológica dos Atos) – Brasil 2014
Cena 1 – Estádio Mineirão
(Sábado, 28/06/2014 – 13:00): Torcida brasileira, composta em sua absoluta
maioria de representantes de nossas valorosas classes altas e médias, vaia
vergonhosamente o Hino Nacional chileno, desprezando o dever de anfitrião de
respeitar o símbolo nacional do visitante. Não se trata de vaia ao adversário
de jogo durante a partida, mas de desrespeito a um símbolo caro aos nossos
hóspedes. Locutor da TV de maior audiência fala constrangido em “festa”, perdendo
a oportunidade “pedagógica” de dar um repto à “maleducação” de nossos
endinheirados despossuídos de civilidade. Estimulada por tal conduta amistosa,
a torcida chilena responde com vaias à execução do Hino brasileiro. Agregue-se
ao desvalor de tudo isso, dias antes, a bela demonstração de finesse da torcida
da seleção brasileira no Estádio Itaquerão – igualmente endinheirada e deseducada –,
traduzindo o que pensam aqueles que compreendem e respeitam apenas a linguagem
do dinheiro.
Cena 2 –
proximidades do Restaurante Recanto do Picuí, Bairro de Intermares, Cabedelo –
PB (mesmo dia – 16:30): Esfomeados pela longa e tensa partida do selecionado
canarinho (lembrando que no meio da tensão o craque célebre não esqueceu
oportunamente de fazer sua propaganda de cueca), eu e Sandra nos dirigimos ao
Restaurante, cruzando, no caminho, com carro ligado, luz de ré acionada, homem adulto
à frente e criança no banco traseiro, com “galega de farmácia” correndo em
direção ao veículo. Ante cena inusitada, dois minutos depois descobrimos com
garçom do estabelecimento que a tal “família” havia fechado a conta, solicitado
uma cerveja adicional, com acréscimo em nova conta, aproveitando a oportunidade
para se evadir do estabelecimento sem pagar a conta. Esperteza bem típica
daqueles com compreendem e respeitam apenas a linguagem do dinheiro.
Cena 3 – dias antes,
Estádios da Arena Pernambuco (Recife) e das Dunas (Natal): após seus jogos na
Copa, a torcida japonesa demonstrou toda a sua polidez, limpando os restos de
seu consumo ao longo de suas partidas. Sem maiores comentários. Precisa?
Cena 4 – Uruguai (25/06/2014):
Comentando a dentada de Luis Suárez no jogador italiano Chiellini, sem fazer
concessões às patriotadas de ocasião, o herói uruguaio Alcides Ghiggia,
proferiu a seguinte afirmação: “Creio que uma punição poderia ser (aplicada) porque é
absurdo, não é a primeira vez que isso acontece. Não sei o que esse rapaz
pensa, o que ele tem na cabeça... Seja uruguaio ou de outra nacionalidade,
sempre é preciso reprovar essas coisas em campo de jogo, isto não é uma guerra”.
ATO 2 – Brasil,
1950
Cena Única –
Maracanã (16/07/1950): Alcides Ghiggia marca o segundo gol do selecionado
uruguaio na final da Copa de 1950. Silêncio no Estádio e torcida volta
amargurada para casa. As imagens preservadas sugerem uma grande tristeza, mas
não se presenciam cenas de pancadaria e quebra-quebra.
Juntando esses Atos e cenas, de grande ou pequena escala, podemos
tecer algumas breves conclusões:
1) Vaiar
o time adversário durante o transcorrer da partida não é o mesmo que
desrespeitar o Hino alheio, símbolo da nacionalidade de nossos visitantes. Como
anfitriões, nos cabe o dever da cortesia, tal como tratamos um hóspede em nossa
casa.
2) Patriotismo
não é vale-tudo e aceitação de agressões desmedidas. A torcida de 1950
respeitou a vitória uruguaia e Ghiggia, passados 64 anos, manteve a coerência
de não confundir uma prática esportiva com a apologia da grosseria e da
agressão. Temos muito a aprender com a torcida de nossos pais e avós e outros
tantos craques de bola e educação do passado.
3) É
pífio o argumento da suposta “cultura” da vaia para definir a conduta da
torcida brasileira. O que se fala sobre 1950 é de um silêncio impressionante no
Maracanã, mas não uma vaia ensurdecedora. Outrossim, mesmo que existisse uma suposta
“vaia cultural”, a educação e a polidez permitem que alteremos condutas
culturais e adquiramos novos hábitos e valores. Que tal copiar esse bom hábito
nipônico, sem entrar naquela de que eles são superiores e o povo brasileiro não
presta? O problema é educacional, não cultural, racial ou qualquer outra dessas
baboseiras.
4) Sobre
isso, vale salientar que a torcida brasileira presente aos estádios não é
composta do “Zé povinho”, mas dos bem-nascidos da terra, que se imaginam acima
do vulgo e se pensam gente da melhor procedência. Indispensável frisar que hoje
têm sido feitas todas as apologias à grosseria, desrespeito, oportunismo, que
estão fazendo que relevemos maus hábitos como vaiar o Hino do visitante,
aplicar golpes em bares e restaurantes, fazer barulho e descartar enormes quantidades
de lixo em bairros de classes médias em grandes cidades brasileiras. Não é esse
tipo de “valores” que estamos a “festejar”?
5) Aproveitando
a ocasião, os meios de comunicação de massa, as mídias sociais e outros agentes
de comunicação (e por que não, de educação ou deseducação?), poderiam fazer
campanhas para que em Fortaleza a nossa torcida faça jus à dignidade de nossos
pais e avós em 1950, respeite o adversário colombiano na hora de seu Hino,
aproveitando para limpar o Castelão após a festa esportiva.
6) Está
na hora de superar a mentalidade senhorial-escravocrata e seu cortejo de
abjeções de comportamento, expressas na absorção continuada do que há de pior
nas nossas elites (esnobismo, oportunismo, arrivismo) por aqueles que conseguem
ascender economicamente. Tal ascensão deve se dar, também, no plano
educacional.
7) Outrossim,
a distinta senhora e seu nobilíssimo consorte bem poderiam pagar a conta em ocasiões
futuras e não dar o exemplo da canalhice militante frente ao seu filho, exposto
a pais tão insalubres, que mereciam uma séria advertência do Conselho Tutelar ou
da autoridade policial, para aprender a ter vergonha na cara.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
ENTREVISTA: Onophra Kasperhöuser, Pós-Doutora Jubilada em Cânones pela Universidade de Tübingen e Magister Honorabilis da Universidade de Blefusco, a Velha.
![]() |
| Onophra Kasperhöuser nos brindou com brilhante entrevista sob os gorjeios das gralhas do Helesponto. |
Num ribombante feito editorial, nossa equipe foi recebida
pela brilhante intelectual em sua dacha, numa fagueira tarde primaveril,
regados pelo sinuoso paladar do chá de azeviche da Armênia e finos biscoitos de
fécula de trigo selvagem da Pomerânia e anêmonas do Mar de Azov, quando os
rouxinóis do Reno doiravam em notas de puro trinado argênteo o crepúsculo que
se avizinhava. Em meio a esse cenário outonal e com o pano de fundo de sua
valiosa Biblioteca pessoal, a Pós-Doutora Jubilada discorreu com suas
reconhecidas modéstia e coloquialidade, mesmo mantendo a tensão da mais pura
polêmica intelectual, acerca de sua mais recente obra, que formaliza e
sintetiza décadas de investigação da célebre Escola Neológica de Sebastopol,
como ela mesma frisa em sua fala. Onophra Kasperhöuser dispensa apresentações,
vamos ao deleite de sua valiosa entrevista.
Diatomáceas: Bom
dia, Pós-Doutora Onophra. Nossos leitores gostariam de saber quais são as
formulações básicas de seu mais recente trabalho Interpolações epistemológicas do neoblochismo através de um approach neo-pós-descontrutivista
em modulações quântico-relativistas na diagnose do fenomenalismo historicista[i].
OKHPDJCUTMHUBV:
Saudações aos leitores. Realmente, minha mais recente investigação parte da
averiguação de uma diagonalidade inferida por Spiegel[ii] em uma
sugestiva passagem de seus preâmbulos interconexos, na qual ele intui que as
inflexões da Lei de Barrabás[iii]
aplicadas às diagnoses possíveis – digo e friso, possíveis –, exigem uma
abordagem senoidal para tornar-se possível observar os approachs oferecidos pelos modelos intercausais. Frisei o termo
possíveis, para me afastar das conclusões indevidas de H. Von Schnauser[iv], que
considero insuficientes para uma investigação adequadamente exponencial e
pertinente ao objectus bolidus que é
referencial mono e pluricausal da fatuidade ontológica do devir. Dito isto,
pude constatar que uma análise modulada das propriedades vibracionais da
dialética neo-pós-descontrutivista, que tangenciem as conclusões mais que
axiomáticas da Escola Neológica de Sebastopol[v], permite
agenciar o conjunto dos fatores que desvendem a gnosis do fenomenalismo historicista. Isso abre, num exemplo
bastante concreto, perspectivas promissoras para entender os espectros de
fronteira entre a analítica politológica de Milk e a politologia prolegomenal
de Coffe[vi].
Digamos, sem qualquer laivo de vanidade, que essas modulações
quântico-relativistas estabelecem as bases definitivas para o entendimento dos
campos de força entrevistos pelo sintagma neoblochiano - veja-se todo o variegado e riquíssimo corpus de Apolônia Bloch. Não há mais nada de
novo a ser dito nessa área, por sinal, podemos até falar numa constatação
bastante coloquial que as teorias neo-fragmentadoras de Künz e da Linea Maginotus estão definitivamente
subsumidas ao conectivismo de Cantacuzeno[vii] e sua opus maximus da Escola Neológica de
Sebastopol. Tenho a honra e a modéstia de ter sintetizado em linhas precisas um
longo esforço de reflexão que perfaz décadas de percucientes análises pioneiramente
inauguradas por Cantacuzeno já nos albores da Era Paregórica.
Diatomáceas: Mas,
considerando as siderações especulativas de Herênius Cardozo[viii], não
poderíamos alimentar a perspectiva...?
OKHPDJCUTMHUBV
(interrompendo): Gostaria de obtemperar veementemente que essa formulação
advém da busca de uma solução para a derivativa de Celsus, que permitiria,
supostamente, digo, supostamente, estabelecer uma constante sociológica para o
ruído de fundo psicohistórico. Definitivamente, por mais tentadora que possa
ter sido essa pueril tentativa, temos, hoje, condições bastante sedimentadas
para crer que os esforços de sua reconstrução confluem de uma dogmática
estabelecida pela leitura ortodoxa de Funks, que criou um Deus Ex Machina lingüístico e estatístico. Vê-se, por essa
consideração, que as interfaces propugnadas por nossos intelectuais
maginotianos[ix]
– pessoas de inegáveis talentos, mas desprovidas de fundamentos mais
sedimentados nas bases epistemológicas da ciência de Albertus Robertus[x] – são de
ordem estritamente metafísicas, desprovidas de qualquer sustentabilidade
empírica. Posso dizer que são interessantes jogos mentais, mas carecem de
qualquer aplicabilidade na ordem prática, conforme mencionei na resposta
anterior, a partir dos casos-exemplo então aduzidos.
Diatomáceas: Efetivamente,
esse problema já foi abordado em outras obras de sua lavra, mas permanece,
digamos, um “ruído de fundo” em relação ao paradoxo de Quaker[xi], que
estabelece os limites prosódicos do ente
universalis na interação com as grandezas algébricas do empiricismo
historicista. Como podemos, então, derivar essa enfiteuse rumo ao fenomenalismo
historicista sem incorrer na célebre aporia de Hermengardus[xii]?
OKHPDJCUTMHUBV: Essa
questão equivale a andar no fio da navalha lógico. Efetivamente, a aporia de
Hermengardus coloca um desconexo ainda não linkado no plano estritamente
ideológico, mas quando ingressamos nas sendas do fenomenalismo historicista, é
possível perceber que tal controvérsia se desvanece e podemos afirmar
peremptoriamente que, tanto a aporia quanto o paradoxo, se transformam em meros
jogos intelectuais, sem fundamentos nos prolegômenos de Sebastopol.
Diatomáceas: Entretanto,
se considerarmos as observações marginais de Springer[xiii],
podemos constatar que...
OKHPDJCUTMHUBV: Deixe-me
interrompê-lo e ressalvar que impugno tal questionamento, por não reconhecer em
Springer e sua “Escola (!!??)” qualquer credencial séria para enfrentar mesmo
aspectos menores das diagonalidades de Spiegel. Simplesmente, o debate não flui
por aí, não está na ordem das coisas.
Diatomáceas:
Mas..
OKHPDJCUTMHUBV: Decididamente, nessa seara não há sustentação
qualquer para qualquer inferência séria e com o mínimo do rigor necessário. Só
para não deixar os leitores menos avisados sem alguma referência, veja como são
inadequadas tais “formulações”: o que dizem eles sobre as circunvoluções
institucionais? Nada. E sobre as interfaces do debate entre minimalistas e
maximalistas? Abaixo da crítica. Que acrescentam ao esforço de rankeamento
cinetoscópico da cosmofera científica? Absolutamente questões irrelevantes que
não mereceram publicações ou citações em qualquer periódico com o mínimo de
pontuação no sistema mars polar calota.
Veja que a Doutora H. Von Schnauser, digo e friso, Doutora, tentou dar alguma
guarida a essa linhagem desalinhada, mas, mesmo ela, com suas limitações,
percebeu que seria inadequado prosseguir em vereda tão infrutífera do petit debat.
Diatomáceas: Compreendemos
e seguimos por outra seara, solicitando suas considerações acerca dos
palpitantes eventos recentes acerca do informe reservado 357, que estabelece
normas técnicas extremamente restritivas para a livre circulação de informações
no âmbito do cosmo-science e das
plataformas integristas.
OKHPDJCUTMHUBV: Quanto
a isso, creio que há um verdadeiro oceano de equívocos. Um samba do caucasiano
doido. Vejam, já em nossa primeira Magnus Opus, sobre as interações
sociopsíquicas na politilogia do Chade[xiv], interpelamos
a comunidade científica e historiográfica a respeito da inadequação de se
observar a restrição fontes de quaisquer natureza. Qualquer representação
significaria uma restrição totalitária do nous,
que jugulava a possibilidade da veritas.
Nossa opção pioneira por incinerar os documentos existentes no Arquivo Público
daquele país, para liberar o sentido da imaginação e invenção, significou um
trabalho realizado com bastante afinco, a fim de estabelecer as bases
efetivamente silogísiticas da veritas.
Se à época houve certa surpresa ou até oposição nos meios acadêmicos – que
Cantacuzeno e eu própria reduzimos a pó e cinzas –, hoje é lugar-comum
reconhecer que a mediação das fontes significa apenas uma ilusão
pseudo-intelectual na produção fenomenalística da escrituração, sendo o imago
da veritas a imaginação
pós-descronológica[xv]. O
resto, podemos dizer com certa fleuma, é pleonasmo, puro pleonasmo.
Diatomáceas: Nos
despedimos da Pós-Doutora Jubilada honrados e embevecidos com oportunidade tão
rara de ouvir tal homilia sapiencial e ansiosos por ouvir suas despedidas Urbis et Orbis.
OKHPDJCUTMHUBV: Saravá.
Amém. Evoé. Ultra Man. Rosquinhas de Coco. Banzai.
[i]
Bayeux: Somme/Ardennes, 2017.
[ii]
Refere-se ao celebérrimo Klaus Helmut Spiegel, verdadeiro monstro sagrado e
monumento dos píncaros da glória do pensamento pós-contemporâneo.
[iii]
Legis Barrabás ou princípio de legitimação cossecante dos efeitos de ilusão
pós-contemporânea na dialógica enfitêutica do logos plenum.
[iv]
Hildebranda Von Schnauser, emérita culturóloga econometrista da Escola
Derivativa de Katmandu. Não confundir com Ildefonsa Von Schnauser, papisa da
Escola Posneoliguística Parúsica de Piripiri.
[v]
Escola Neológica de Sebastopol, liderada por Cantacuzeno e Kasperhöuser, que
define a inexistencialidade da potenciação da poiesis do ontos no imago
da veritas. Referência indispensável
nos novos estudos pós-contemporâneos.
[vi]
A analítica politológica de Milk e a politologia prolegomenal de Coffe ancoram
o debate pós-contemporâneo em sua vertente neopós-contemporânea, que se opõe à
vertente arqueopós-contemporânea, de Flink e Von Silva.
[vii]
Cantacuzenus. Mestre da Pós-Doutora Onophra, que o considera o fundador de toda
a dialogia da Escola Neológica de Sebastopol.
[viii]
Vide sua obra Siderações Especulativas no
estudo compreensivo e expressionista do Legalismo Neopóscientológico de Potter.
[ix]
Refere-se a Pós-Doutora Kasperhöuser aos adeptos da Linea Maginotus, grupo de
pensadores descartesianos, liderados no início da Era Paregórica pelo Doutor
Herênius Cardozo, paradigmático e genearcologista da Universidade
Transcendental da Basileia-Dortmund. O termo intelectuais maginotianos é
mencionado em forma de blague e não sem ironia, devido à denegação que os
pensadores de Maginotus fazem ao termo intelectual e sua adoção da terminologia
pensador para a definição de sua atividade cognoscente.
[x]
Pensador clássico pré-Paregórico, sob cujas Considerações
Tempestivas e Tempestuosas acerca da gnosis pré-Paregórica, se estruturaram
as divergências centrais do lidiismo nominalista que se segue há décadas.
[xi]
Paradoxo de Quaker: Protocontradição teorética relacionada à obra de Severinus
Quaker, que estabeleceu um acirrado debate nas últimas décadas do século
anterior, opondo cientologistas californianos aos Philosofes da Escola
neoessencialista de Oricuri. A controvérsia gerou obras de relevo no pensamento
contemporâneo, embora datadas pelo contexto da famosa “crise dos
parâmetros”.
[xii]
Aporia de Hermengardus: Principal formulação decorrente da crise dos parâmetros
ou “querela dos quantuns sociocêntricos”, que chancelou o ingresso das teorias
neoregencianas no quadro do horizonte psicohistórico. Feuderhann, numa
abordagem não despida de ironia, a designou como “o beco sem saída de todo o
pensamento ocidental”.
[xiii]
Springer Socic Admiral. Líder do Grupo Herênius
Cardozo, vinculado à Universidade Filarmônica de Lemúria e propositor do
célebre Simpósio de Culturama upper
Guaçu.
[xiv]
Refere-se a Pós-Doutora a uma de suas clássicas Magnus Opus: Translações obliteradas nas interações
sociopsíquicas na politilogia do Chade: aspectos teoréticos e metodológicos de
uma investigação a partir do imago da veritas (Luxemburgo/Vaduz:
Universitat Comblusiana, 1965).
[xv]
Como diz em letras pétreas a Pós-Doutora Onophra Kasperhöuser em seu polêmico e
instigante artigo A Fonte real: a
construção do imago da veritas a partir da negação da fonte material: dialógica
da incineração dos arquivos de múltiplas dimensionalidades e suporte: a
experiência no Chade (ImagoClio, ANO LVII, Nº 333, 1966), “o registro
documental em qualquer suporte é uma violentação da essência do ontos, por isso, o ontos só é atingível em sua essência pela imaginação do logos sobre si”.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
O Pão Metafórico do Cartismo
Na estranha "alquimia" da "padaria cartista", o pão das massas foi transmutado na massa do pão.
Aconteceu em 1988, nas aulas de História Contemporânea, ministradas pela Professora Inês Caminha.
Inês, professora
bastante exigente, havia passado uma boa dose de leituras, sendo que uma delas,
que não consegui localizar entre minhas pastas do passado mesmo após buscas
insanas e ajuda de Pablo (erro imperdoável para um historiador desde o tempo dos metódicos),
continha algo sobre movimentos sociais na Inglaterra ao longo da Revolução
Industrial.
Detalhes à parte
(detalhes documentais importantes), recorrerei à traiçoeira memória para não
deixar escapar a história...
O fato é que um dos
textos (ainda hei de localizá-lo) continha uma citação que dizia algo em
sentido figurado sobre o Cartismo, mais ou menos nos seguintes termos: “cartismo é uma questão de faca e o garfo,
de pão e o queijo...”, enfim, como descobri na internet, o orador Joseph
Rayner Stephens assim definia o movimento em 1838 e devo ter lido em termos
aproximados na “apostila” de História Contemporânea.
O problema não é que o
Cartismo tenha me empolgado especialmente à época (o que não significa qualquer
antipatia ao movimento, muito pelo contrário), apenas destaco que se verificou,
digamos, algo como uma microhistória em relação ao tema, dessas meio
corriqueiras em salas de aula, que até hoje reboa nos circuitos da minha
memória.
Algumas figuras da sala
de aula, não muito amigas de leituras – na verdade, francamente hostis à
leitura (algo muito peculiar e visto às vezes com uma “naturalidade”
inquietante em Escolas e Universidades brasileiras) –, comentavam e roíam os
neurônios, sem conseguir entender, afinal, por que o Cartismo era um pão? O que
diabos tinha a ver o combativo movimento social inglês com o alimento nosso de
cada dia?
Aulas se passavam e o
ruído do pão Cartista ecoava em rumores meio espantados meio raivosos na sala;
a tensão aumentava, mas as figuras não tomavam a iniciativa necessária, qual
seja, por que simplesmente não perguntavam à professora o que significava
aquele pão de gosto tão estranho? Basicamente, se reclamava contra o pão
cartista e contra a professora, mas o problema seguia e se agravava.
Às vésperas da prova,
uma das figuras, emissária das demais que ficaram de rabo de ouvido à espreita,
se acercou de minha pessoa e perguntou de chofre:
– Por que o Cartismo é
um pão?
Refeito do susto de tão
objetiva e certeira pergunta, tentei obtemperar alguma coisa, não sem antes ouvir severas
perorações contra a professora que havia “passado apostila tão difícil”, “o que
essa apostila tinha a haver com os alunos da rede” e coisas do gênero. Mas,
tentei diplomaticamente continuar:
– Bom, fulana... isso
não significa que o Cartismo seja um pão de padaria, desses que a gente come. O
autor está usando uma linguagem figurada com a citação do discurso, ele se
refere aos direitos do povo de reivindicar, de ter uma boa vida etc etc etc...
Até aí tudo bem, mas
cometi um erro imperdoável, que redundou no naufrágio do conjunto da obra:
– Pois então, o
Cartismo não é um pão de padaria, é um tipo de pão metafórico... e continuei
alguma bobagem adicional.
Ao falar em “pão
metafórico”, percebi que as figuras se entreolharam e de imediato escreveram às
pressas em seus cadernos. Ali estava um “bizu”, uma “cola”,uma “fila”, uma dica
infalível... as provas haveriam de prosperar. Com uma palavra bonita dessas...
Poucos dias se
passaram, provas realizadas, e a Professora Inês comunicou as notas, com alguns
comentários gerais sobre o desempenho da turma. Observou que havia algumas provas
muito boas, mas, curiosamente, em oito delas estava escrita a impenetrável e
insondável frase “o Cartismo é um pão metafórico”, cujo sentido ela ignorava
completamente...
Oito pares de olhos
repletos de ódio simultaneamente gélido e ígneo me encaravam por ter dado a
dica errada... Dava pra sentir a frialdade do ambiente e o desejo das criaturas
que o chão se abrisse sob meus pés e eu fosse queimar nas profundezas do
inferno, comendo o pão que o diabo cartista amassou... eu haveria de pagar
amargamente por isso...
Sei lá o que aconteceu
no futuro com as figuras, sei lá se elas se lembram do episódio, a não ser,
talvez, para comentar minha atitude que julgaram sacana por ter passado a fila
errada às vésperas da prova. Não sei se até hoje elas conseguiram digerir o pão
metafórico do Cartismo, mas creio que paguei caro esse involuntário pecado de suposta falta de
solidariedade anos depois, já como professor na Faculdade de Bragança Paulista,
quando sugeri uma monografia como avaliação para uns alunos de História do
Brasil Império e uma figura cutucou no braço da outra com o seguinte
comentário:
– Manografia é porque é
a mão. Se fosse a máquina era datilografia...
Cai o pano...
sexta-feira, 4 de abril de 2014
A Bimilenar Quermesse Etílico-Historiográfica
![]() |
| O Padroeiro dos Historiadores registrou a chatice universal em seu Syllabus condenatório. |
Falha-me a memória e não sei dizer se foi o Honorável Dan ou Edson
Joaquim que me telefonou num determinado dia lá pelas calendas de 1993 ou 94,
dizendo que havia comprado um Dicionário de Santos e que descobrira a gloriosa
existência de um Padroeiro dos Historiadores, Santo Isidoro de Sevilha,
com sua data comemorativa em 04 de Abril.
Esse
sinal se tornou um verdadeiro vaticínio. Telefonemas foram trocados em profusão e um desses
planos sórdidos, urdido por mentes desocupadas e desequilibradas, começou a ser posto em
prática: por que não promovermos uma Quermesse para nosso excelso Padroeiro?
Afinal, seus grandes e insopitáveis méritos – os quais ignorávamos completamente – exigiam uma
festança à altura das mais legítimas tradições do e de ofício.
Na
inexistência da internet (que também veio a ser mais tarde protegida pelo mesmo
venerando Padroeiro sevilhano, o que deveria gerar o pagamento de royalties aos
historiadores, os quais modestamente me candidato ao difícil mister de receber), procuramos em Enciclopédias os escassos dados sobre nosso
Santo. Um descobriu que o mesmo era grande erudito e importante Doutor da
Igreja, autor das célebres Etimologias, que reuniam vasto conhecimento disponível
em seu tempo, entre os séculos VI e VII, além de suas Histórias dos Reis
Visigodos. Outro descobriu, ou imaginou após virar canecas de cerveja, que
havia grandes festividades em Sevilha e cercanias.
Essa
“descoberta” foi a senha para decidirmos realizar com fervor uma portentosa
Quermesse, uma pândega com direito a farto consumo de bebidas espirituosas.
Logo, a turma resolveu sofisticar bastante as coisas, porque uma sacanagem bem
feita exige rigoroso planejamento e organização.
No
plano material, o Honorável Dan e Edson Joaquim se puseram a levantar fundos
para as viandas e bebidas da festa. Foram às feiras dos burgos circunvizinhos e
compraram, em generosa promoção, muitos e muitos barris de vinho missal e uns
sacos do delicioso salgadinho que matou Iscariotes.
No
plano espiritual, eu e Chico “descobrimos” que a mais antiga Ordem Regular do
mundo cristão – ou seja, a nossa – nascera há mais de 2.000 anos, ou seja,
antes mesmo de Cristo. São Bento era moderninho frente à anciania e tradição
Isidoriana. Não poderíamos aceitar como digno de consideração nada inferior ao
bimilênio.
De posse de tais dados
realizamos tumultuada Eclésia, ocasião na qual se discutiu uma série de pontos
doutrinários sobre se a Ordem seria exclusivamente de Frades ou se haveria
Freiras, se seria mista, se haveria Irmãos Leigos et coetera. Enfim, após uma pletora de argumentos e latinórios deblaterados
enérgica e etilicamente, num rompante pachorramente meditado, os gerontes
decidiram que havia sido criada a Bimilenar
XXIV Pia Irmandade dos Filhos Bastardos de Santo Isidoro de Sevilha, com
todos os selos, carimbos e estampilhas de direito, para inveja de todo o Orbe e
gáudio da cristandade.
Jamais
se resolveu exatamente o problema da Sigla, uma vez que se digladiaram por dois
milênios duas tradições inconciliáveis, duas vertentes dogmáticas da mesma Ordem,
compostas pelos mesmos Irmãos: de um lado ficariam os adeptos da I.S.I.S. (Irmandade
de Santo Isidoro de Sevilha), de outro, a O.S.I.R.I.S. (Ordem de Santo Isidoro
Reverendíssimo Irmão de Sevilha). Isianos e Osirianos sectariamente não se bicam
há mais de vinte séculos, apesar de serem as mesmas pessoas.
Para
a escolha do Conselho Curial, os Irmãos elegeram por aclamação, unanimidade e revelia
o Frater Dom Reverendo Abade Paulo Valadares, judeu impenitente e pertinaz,
historiador e genealogista de nomeada e autor de romances de faroeste nas horas
vagas. O cargo principal, de Irmão guardião dispenseiro, aquele que controlava
o fornecimento de bebidas espirituosas, que guardava as chaves da adega
monacal, coube ao Frater Venerável Piassa “o caveira cheia”, homem de
ilustradas qualidades intelectuais, lustradas pelo óleo escorrido e destilado
da seiva da cana arábica, solicitada a todos os estalajadeiros existentes acima
do chão e abaixo do céu (segundo a inspiração do lendário Jessé de Xerém,
eremita da noitada dos tempos). Aos Frater Neuderius, Geraldus, Edsonius,
Ivanius e demais, couberam Dignidades, Consulados, Diaconias, Comendas,
Prebendas e Mercês diversas na intrincada Cúria da Bimilenar Ordem, sem
qualquer reserva contrária ao recurso ao paroquialismo, ao nepotismo e todas
essas benesses esquecidas por esse decaído mundo moderno que sucedeu o glorioso
século IX da Idade do luminoso Alto Medievo.
O
Brasão da Bimilenar – com dois exemplares descobertos em piedosas escavações realizadas
nas ruínas abandonadas do Templo de “arcadas gregas e horrores arquitetônicos” da
urbe campinana e no encanamento do Chafariz da Poderosa –, ostentava as folhas
de cana e portava o singelo dístico Canae
Spiritu spiritum collustrat, que na língua de Luís de Camões teria o arcano
significado “o espírito da cana ilumina o nosso espírito”.
Coube
ao Venerável e Condestável Chico, inspirado pelos barris e copázios fornecidos
pelo Frater Piassa, a escrita apócrifo-oficial da Bimilenar História da Ordem,
já escrita nos albores do primeiro milênio pelo Venerável Ungulano de Tuhiuty,
irmão que cruzara em milhares de toesas celtas os Campos Catalúnicos depois do
passamento de Átila, o compassivo. Coube-me na qualidade de Frater Orator,
preparar o discurso panegírico solene que seria pronunciado por ocasião da nossa vibrante
Quermesse, em benefício das baratas sobreviventes da Terceira Guerra Mundial, na
Data magna de 04 de Abril, que se aproximava celeremente.
![]() |
| Cartaz da Bimilenária Ordine Frater Isidorianus. |
Ajudados
pelo Noviço Mauricius Barcalonensis, preparamos as vestes talares para a cerimônia,
a acontecer na Noite de Santo Isidoro, no Salão Nobre do DCE da PUCCAMP. Tais vestes,
nas simbólicas cores branca e preta, traziam a imagem do Padroeiro, a
referência à célebre contenda de Buñuel (Batismo: a) aspersão, b) imersão ou c)
pulverização?), imagens de cânticos Isidorianos, garrafas do espírito da cana
e, por fim, uma peroração em latim com profundo e enigmático significado
litúrgico.
Feitos
os esmerados preparativos, com direito à severa reprimenda de um Padre Secular
da PUCCAMP, desgostoso com o zelo dos Isidorianos, a patuscada, com numerosa
presença de fiéis, se alongou pela noite, com direito ao pronunciamento de uma
Irmã Leiga Nipo-Pôrra Louca gritando em sânscrito, cenas de blasfêmia sob
autorização do Freire Micaelus Bakhtinius, empolados discursos e homilias, que
fizeram correr de pânico pela Regente Feijó, os devotos da IURD que saíam
àquelas horas tardas de seu culto. Pandemônio total, terminado no Monastério do
Pastelonius já na avançada madrugada-que-namora-a-aurora, quando os Irmãos davam eloqüentes
testemunhos eivados de plena devoção.
Os
Venerandos Guardiões Maiores Esmoleres da sublime adega, sob os auspícios do
Venerável Piassa “o caveira cheia”, Honorável Dan e Frater Isaac Edson (em sua
versão hebréia-isidoriana), conseguiram que o finíssimo vinho missal (verdadeira
ambrosia olímpica) e o salgadinho Iscariotes dessem um lucro de espantosas
proporções, que deixaria os Médici e os Rothschild humilhados per saecula saeculorum. As generosas
receitas oriundas de tal portento geraram uma farta churrascada dias após,
quando os Isidorianos narraram as tradições da Ordem para os ouvidos espantados
dos noviços, embasbacados com o peso e circunferência abdominal das vetustas
tradições que se perdiam no fundo do oco-do-mundo.
Reza
uma piedosa lenda que, dessa singela cerimônia – registrada em vestígio oral
cujo fragmento se acha cerrado num cofre secreto, depositado por Dan Brown, “o
fanfarrão”, no subsolo do Monastério do Pastelonius –, a famosa Oração dos Filhos
Bastardos de Santo Isidoro de Sevilha remanesce desde antanho, para elevação e gáudio
de todos espíritos ilustrados pelo espírito da cana.
Excelso
Santo Isidoro,
olhai para teus filhos bastardos e não permiti que chatos sejam os
historiadores.
Zelai para que aqueles atingidos por tal praga sejam enforcados nas
tripas dos burocratas da Alemanha Oriental e do Pentágono e precipitados no
topo da rocha Tarpéia que está no fundo do abismo que se situa acima do subsolo
dos Departamentos de História de todo o globo terráqueo.
Fornecei, sem limites, o sacro espírito da cana, para fazer
perceber aos historiadores que quem estuda gente tem de gostar de gente, sob
pena de serem os chatos meros escrevinhadores de relatórios destinados ao
inferno tecnocrático dos números esquecidos.
Dai luz aos incautos para que percebam que a soma do quadrado da
chatice é diretamente proporcional ao cubo da burrice.
Fazei com que teus devotos levantem sempre o próximo brinde, a cada
ano que se segue, nessa bimilenar trajetória que habita os píncaros da glória
do pedestal de Isidoro, cravado firmemente no solo fértil das idéias inúteis e
risíveis.
Deixai com que todos os teus bastardinhos possam rir às
bandeiras despregadas sempre que a imbecilidade e a arrogância ameacem vencer
as eleições para síndico do teu Monastério. Canae
spiritu spiritum collustrat!!!.
* Para Fhillipus Gustavus, que não é Frater da
Bimilenar Confraria, mas nasceu nesse dia, sob os auspícios de Santo Isidoro de
Sevilha e para o Frater Marcellus Barretus Ferreirus, “o colérico”, Isidoriano
de velhas datas das plagas Mogianas, que assopra velinhas nos idos do glorioso mês
Isidoriano.
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