sexta-feira, 4 de abril de 2014

A Bimilenar Quermesse Etílico-Historiográfica

O Padroeiro dos Historiadores registrou a
chatice universal em seu Syllabus condenatório.
                Falha-me a memória e não sei dizer se foi o Honorável Dan ou Edson Joaquim que me telefonou num determinado dia lá pelas calendas de 1993 ou 94, dizendo que havia comprado um Dicionário de Santos e que descobrira a gloriosa existência de um Padroeiro dos Historiadores, Santo Isidoro de Sevilha, com sua data comemorativa em 04 de Abril.
                Esse sinal se tornou um verdadeiro vaticínio. Telefonemas foram trocados em profusão e um desses planos sórdidos, urdido por mentes desocupadas e desequilibradas, começou a ser posto em prática: por que não promovermos uma Quermesse para nosso excelso Padroeiro? Afinal, seus grandes e insopitáveis méritos – os quais ignorávamos completamente – exigiam uma festança à altura das mais legítimas tradições do e de ofício.
                Na inexistência da internet (que também veio a ser mais tarde protegida pelo mesmo venerando Padroeiro sevilhano, o que deveria gerar o pagamento de royalties aos historiadores, os quais modestamente me candidato ao difícil mister de receber), procuramos em Enciclopédias os escassos dados sobre nosso Santo. Um descobriu que o mesmo era grande erudito e importante Doutor da Igreja, autor das célebres Etimologias, que reuniam vasto conhecimento disponível em seu tempo, entre os séculos VI e VII, além de suas Histórias dos Reis Visigodos. Outro descobriu, ou imaginou após virar canecas de cerveja, que havia grandes festividades em Sevilha e cercanias.
                Essa “descoberta” foi a senha para decidirmos realizar com fervor uma portentosa Quermesse, uma pândega com direito a farto consumo de bebidas espirituosas. Logo, a turma resolveu sofisticar bastante as coisas, porque uma sacanagem bem feita exige rigoroso planejamento e organização.
                No plano material, o Honorável Dan e Edson Joaquim se puseram a levantar fundos para as viandas e bebidas da festa. Foram às feiras dos burgos circunvizinhos e compraram, em generosa promoção, muitos e muitos barris de vinho missal e uns sacos do delicioso salgadinho que matou Iscariotes.
                No plano espiritual, eu e Chico “descobrimos” que a mais antiga Ordem Regular do mundo cristão – ou seja, a nossa – nascera há mais de 2.000 anos, ou seja, antes mesmo de Cristo. São Bento era moderninho frente à anciania e tradição Isidoriana. Não poderíamos aceitar como digno de consideração nada inferior ao bimilênio.
De posse de tais dados realizamos tumultuada Eclésia, ocasião na qual se discutiu uma série de pontos doutrinários sobre se a Ordem seria exclusivamente de Frades ou se haveria Freiras, se seria mista, se haveria Irmãos Leigos et coetera. Enfim, após uma pletora de argumentos e latinórios deblaterados enérgica e etilicamente, num rompante pachorramente meditado, os gerontes decidiram que havia sido criada a Bimilenar XXIV Pia Irmandade dos Filhos Bastardos de Santo Isidoro de Sevilha, com todos os selos, carimbos e estampilhas de direito, para inveja de todo o Orbe e gáudio da cristandade.
                Jamais se resolveu exatamente o problema da Sigla, uma vez que se digladiaram por dois milênios duas tradições inconciliáveis, duas vertentes dogmáticas da mesma Ordem, compostas pelos mesmos Irmãos: de um lado ficariam os adeptos da I.S.I.S. (Irmandade de Santo Isidoro de Sevilha), de outro, a O.S.I.R.I.S. (Ordem de Santo Isidoro Reverendíssimo Irmão de Sevilha). Isianos e Osirianos sectariamente não se bicam há mais de vinte séculos, apesar de serem as mesmas pessoas.
                Para a escolha do Conselho Curial, os Irmãos elegeram por aclamação, unanimidade e revelia o Frater Dom Reverendo Abade Paulo Valadares, judeu impenitente e pertinaz, historiador e genealogista de nomeada e autor de romances de faroeste nas horas vagas. O cargo principal, de Irmão guardião dispenseiro, aquele que controlava o fornecimento de bebidas espirituosas, que guardava as chaves da adega monacal, coube ao Frater Venerável Piassa “o caveira cheia”, homem de ilustradas qualidades intelectuais, lustradas pelo óleo escorrido e destilado da seiva da cana arábica, solicitada a todos os estalajadeiros existentes acima do chão e abaixo do céu (segundo a inspiração do lendário Jessé de Xerém, eremita da noitada dos tempos). Aos Frater Neuderius, Geraldus, Edsonius, Ivanius e demais, couberam Dignidades, Consulados, Diaconias, Comendas, Prebendas e Mercês diversas na intrincada Cúria da Bimilenar Ordem, sem qualquer reserva contrária ao recurso ao paroquialismo, ao nepotismo e todas essas benesses esquecidas por esse decaído mundo moderno que sucedeu o glorioso século IX da Idade do luminoso Alto Medievo.
                O Brasão da Bimilenar – com dois exemplares descobertos em piedosas escavações realizadas nas ruínas abandonadas do Templo de “arcadas gregas e horrores arquitetônicos” da urbe campinana e no encanamento do Chafariz da Poderosa –, ostentava as folhas de cana e portava o singelo dístico Canae Spiritu spiritum collustrat, que na língua de Luís de Camões teria o arcano significado “o espírito da cana ilumina o nosso espírito”. 
                Coube ao Venerável e Condestável Chico, inspirado pelos barris e copázios fornecidos pelo Frater Piassa, a escrita apócrifo-oficial da Bimilenar História da Ordem, já escrita nos albores do primeiro milênio pelo Venerável Ungulano de Tuhiuty, irmão que cruzara em milhares de toesas celtas os Campos Catalúnicos depois do passamento de Átila, o compassivo. Coube-me na qualidade de Frater Orator, preparar o discurso panegírico solene que seria pronunciado por ocasião da nossa vibrante Quermesse, em benefício das baratas sobreviventes da Terceira Guerra Mundial, na Data magna de 04 de Abril, que se aproximava celeremente.

Cartaz da Bimilenária Ordine Frater Isidorianus.
                  Ajudados pelo Noviço Mauricius Barcalonensis, preparamos as vestes talares para a cerimônia, a acontecer na Noite de Santo Isidoro, no Salão Nobre do DCE da PUCCAMP. Tais vestes, nas simbólicas cores branca e preta, traziam a imagem do Padroeiro, a referência à célebre contenda de Buñuel (Batismo: a) aspersão, b) imersão ou c) pulverização?), imagens de cânticos Isidorianos, garrafas do espírito da cana e, por fim, uma peroração em latim com profundo e enigmático significado litúrgico.
                Feitos os esmerados preparativos, com direito à severa reprimenda de um Padre Secular da PUCCAMP, desgostoso com o zelo dos Isidorianos, a patuscada, com numerosa presença de fiéis, se alongou pela noite, com direito ao pronunciamento de uma Irmã Leiga Nipo-Pôrra Louca gritando em sânscrito, cenas de blasfêmia sob autorização do Freire Micaelus Bakhtinius, empolados discursos e homilias, que fizeram correr de pânico pela Regente Feijó, os devotos da IURD que saíam àquelas horas tardas de seu culto. Pandemônio total, terminado no Monastério do Pastelonius já na avançada madrugada-que-namora-a-aurora, quando os Irmãos davam eloqüentes testemunhos eivados de plena devoção.
                Os Venerandos Guardiões Maiores Esmoleres da sublime adega, sob os auspícios do Venerável Piassa “o caveira cheia”, Honorável Dan e Frater Isaac Edson (em sua versão hebréia-isidoriana), conseguiram que o finíssimo vinho missal (verdadeira ambrosia olímpica) e o salgadinho Iscariotes dessem um lucro de espantosas proporções, que deixaria os Médici e os Rothschild humilhados per saecula saeculorum. As generosas receitas oriundas de tal portento geraram uma farta churrascada dias após, quando os Isidorianos narraram as tradições da Ordem para os ouvidos espantados dos noviços, embasbacados com o peso e circunferência abdominal das vetustas tradições que se perdiam no fundo do oco-do-mundo.
                Reza uma piedosa lenda que, dessa singela cerimônia – registrada em vestígio oral cujo fragmento se acha cerrado num cofre secreto, depositado por Dan Brown, “o fanfarrão”, no subsolo do Monastério do Pastelonius –, a famosa Oração dos Filhos Bastardos de Santo Isidoro de Sevilha remanesce desde antanho, para elevação e gáudio de todos espíritos ilustrados pelo espírito da cana.
                Excelso Santo Isidoro,
olhai para teus filhos bastardos e não permiti que chatos sejam os historiadores.
Zelai para que aqueles atingidos por tal praga sejam enforcados nas tripas dos burocratas da Alemanha Oriental e do Pentágono e precipitados no topo da rocha Tarpéia que está no fundo do abismo que se situa acima do subsolo dos Departamentos de História de todo o globo terráqueo.
Fornecei, sem limites, o sacro espírito da cana, para fazer perceber aos historiadores que quem estuda gente tem de gostar de gente, sob pena de serem os chatos meros escrevinhadores de relatórios destinados ao inferno tecnocrático dos números esquecidos.
Dai luz aos incautos para que percebam que a soma do quadrado da chatice é diretamente proporcional ao cubo da burrice.
Fazei com que teus devotos levantem sempre o próximo brinde, a cada ano que se segue, nessa bimilenar trajetória que habita os píncaros da glória do pedestal de Isidoro, cravado firmemente no solo fértil das idéias inúteis e risíveis.
Deixai com que todos os teus bastardinhos possam rir às bandeiras despregadas sempre que a imbecilidade e a arrogância ameacem vencer as eleições para síndico do teu Monastério. Canae spiritu spiritum collustrat!!!.


* Para Fhillipus Gustavus, que não é Frater da Bimilenar Confraria, mas nasceu nesse dia, sob os auspícios de Santo Isidoro de Sevilha e para o Frater Marcellus Barretus Ferreirus, “o colérico”, Isidoriano de velhas datas das plagas Mogianas, que assopra velinhas nos idos do glorioso mês Isidoriano.                  

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

FLIPERAMA ACADÊMICO

                                                                          
    Ângelo Emílio da Silva Pessoa


         Rodrigues havia acabado de receber a Carta de Aceite da oitava versão, levemente modificada e com o título alterado, de seu artigo sobre as representações da seca em Quixeramobim. Para seu gáudio, era um conceituado periódico francês e seria publicado no legítimo idioma gaulês, para ódio e inveja de seu eterno desafeto Pessoinha, que mal havia emplacado alguma coisa em um qualis inferior desses qualquer. Afinal, havia coisa melhor que publicar para açular as invejas de alguns coleguinhas de trabalho? Outrossim, o que saberiam os franceses sobre a seca em Quixeramobim? Os mais excêntricos pensariam tratar-se de um bairro de Montaillou e daria um tom chic tentar falar aquele nome estrangeiro com a língua de Zola e Flaubert. Só não perdoava seu antigo e zombeteiro ex-orientando que escrevera diligente Tese sobre o Padre Manuel do Sacramento Lopes Gama e seu jornal Oitocentista, sob a qual farejava algum tipo de provocação subliminar.
             Já Madame Pires, grande dama acadêmica, tinha direito a uma corte que desenvolvia um elaborado ritual hierarquizado de bajulações e rapapés, como uma espécie de requintada Socila acadêmica, que mataria de inveja o Imperador Alexis Comneno no seu modesto Palácio de Constantinopla. Ela dividira engenhosamente seus súditos em juniors, masters e Sêniors. Os juniors eram alguns poucos graduandos que tinham o direito de carregar sua indefectível garrafinha de água Perrier ou a termic-bottle canadense que mantinha do chá da Madame sempre na temperatura ideal para seu deguste. Ai de alguma dessas pobres almas se deixasse a tampa levemente aberta. Para entrar nos juniors não era brincadeira, havia uma espécie de sacro arrebatamento, no qual se acendia velas para São Pibic, o poderoso, que criava especialistas em literatura visigoda que não sabiam quem era Ernesto Geisel ou o que foi a batalha de Stalingrado. Mas tudo bem, outros petizes haveriam de ser profundos especialistas nesses temas tão espinhosos quanto desconhecidos do vulgo. Os masters, conspirando em surdina contra os Sêniors, descontavam com requintes de crueldade sobre os miseráveis juniors, as humilhações sofridas em épocas passadas, quando eram os calouros do séquito. Entre os Sêniors, havia uma gradação sutil, que obedecia um critério tão inescrutável quanto mutável, ao talante dos caprichos da grande Senhora. Saber os elaborados passos da etiqueta era fundamental para sobreviver nessa selva de veludo.
                A maior especialista do Ocidente na vasta obra de Klaus Helmut Spiegel – como assim gostava de se intitular –, Dona Gonçalves mantinha sua pacata vida produtiva e não era importunada por alunos de graduação devido a uma piedosa lenda que espalhara em torno de sua iracunda personalidade, o que fazia com que a pirralhada se mantivesse a uma segura distância e evitasse que ela perdesse seu precioso tempo explicando detalhes da guerra dos trinta anos ou discutindo pela milésima vez os meandros do mediterrâneo braudeliano. Nas raras e tensas ocasiões nas quais comparecia a eventos, encerrava suas falas com trovejantes frases em alemão, que desencorajava mesmo os alunos mais intrépidos a proferirem qualquer facécia de uma pergunta indesejada. Defendia com vigor a democracia, provinda de algum recôndito da vida civil, que se baseava naquele princípio ministerial que realizava consultas à plebe acadêmica com a seguinte recomendação: era possível votar qualquer coisa que se quisesse em relação às normas e resoluções, mas se não fossem favoráveis aos insondáveis mistérios dos ministérios, não haveriam de lograr as tão desejadas verbas, que se faziam carne nesse evangelho universitário.    
                Duarte, com sua prodigiosa erudição e portentosa memória, sabia em detalhes toda a intrincada contabilidade dos índices de qualificação dos livros, periódicos e eventos. Bastava murmurar perto dele algum nome ou evento, que ele discorria com perícia digna de um contabilista do First National City Bank sobre as diversas modulações do que conviria ou não publicar ou promover. Qualquer gota de suor gasto deveria se pautar pelos saudáveis princípios erigidos pelo filósofo George F. Babbitt, como esteios de toda a civilização realmente avançada e moderna. Nada de apatia, nada de muita postura reflexiva e essas coisas inermes, tudo devia ser ação e energia, muita produção e projeção. Um sobrenome constelado de títulos e índices garantiria per se a validade de qualquer pensamento e o penhor de tanto esforço existencial. Seus acólitos se iniciavam no duro aprendizado das escalas e medidas, pois nada que não seja mensurável é digno de qualquer consideração. Que falta de tempo discutir miudezas como o ensino da disciplina para pivetinhos de periferia ou apresentar trabalhos em eventos de abrangência local ou regional. Melhor despender esforços para emplacar um paper sobre representações femininas em Alhandra num Simpósio Sideral em Trebizonda ou, na pior da hipóteses, no Encontro Internacional de História do Curso de Kentuksville, sertão do Arizona. Que importava que Trebizonda, Kentuksville ou Alhandra se ignorassem mutuamente? O que contava era obter a tão almejada pontuação que permitisse um dia empunhar o látego sobre seus próprios pimpolhos.   
                Chega ao proscênio Ildefonsa Von Schnauser a “Papisa das Minorias”. Ela, que nunca participara de qualquer mobilização política, ingressara com furor bélico na guerra lingüística, que visava criar sub-línguas para que todos os grupos diferenciados não se comunicassem entre si, pois toda a comunicação genérica não consistia em nada mais que todas as formas de totalitarismo contra os dominados de todo o mundo em todos os tempos. Participara ativamente da elaboração de verbetes da 18ª edição do Dicionário de Novilíngua, do qual nenhuma edição chegara ao público, porque seus autores não se entendiam sobre as terminologias adequadas: como escrever a maléfica palavra professor, por exemplo? Professor? Professora? Professorx? Professor@? E porque o maldito “o”? Não poderia ser “Prafessor”? Nada de acordo, tudo era o puro totalitarismo das teorias conspirativas e não havia linguagem que não reduzisse o ser às grades do poder. Como solução, nas suas disciplinas de estudos em paralaxe, os alunos se mantinham em completo mutismo, alimentando e destilando venenosamente um ódio feroz, com os dentes rangendo contra os colegas (como chamar isso? Colegos? Coleg@as? Colegx? “Calegos”?), que tinham a infelicidade de não serem absolutamente semelhantes uns aos outros e, portanto, eram inimigos por definição onto e filogenética.  
                Pós-Doutor Narciso de Sylva Y Narcisus dedicara suas energias ao aperfeiçoamento minucioso do umbilicalismo histórico, método que desenvolvera desde que descobrira – após levar uma bordoada de um PM numa passeata de fins dos anos 70 – que tudo aquilo não passava de uma projeção de seu ego. Não, nada e ninguém existiam, tudo era apenas resultado de sua laboriosa atividade mental. Ele se sentia desafiado a resolver o curioso enigma de como suas invenções humanas ou as coisas que construía em elaborados silogismos teimavam em não obedecer exatamente seus desejos. Parecia que havia uma zona opaca em sua mente que ele investigava em introspecções detalhadas e que insistia em contrariar os geniais scripts que preconizava para as pessoas e coisas frutos de sua criação. Devido à força das condições materiais de seu contrato de trabalho, tivera de se render à evidência da existência de um mundo extra-epitelial, uma vez que esse mundo da baixa matéria pagava seus proventos. Suas participações em importantes colóquios internacionais eram temperadas por reclamações constantes sobre a qualidade dos hotéis e a ruindade dos auditórios utilizados. Elaborou uma proposta revolucionária para sua entidade nacional, que consistia na adoção dos princípios do golfe nos eventos, com o uso de carrinhos para deslocar as intellectual celebrities e a contratação de caddies para servi-las pressurosamente em seus mais singulares desejos.
                O Emérito professor Costa, que havia defendido em épocas passadas sua famosa Tese summa cum laude sobre O Prisioneiro Atlântico, sob orientação do célebre Dr. Valadares, havia se afastado rumorosamente da entidade nacional, desde que a mesma havia aberto inscrições para modestos mestres de ensino básico na década anterior. Onde já se vira conspurcar a pureza da ciência com estéreis discussões sobre função social do conhecimento e essas bazófias ridículas? Para gozar de paz e quietação pessoal, começara a despachar seus bolsistas de mestrado ou doutorado para assumir as maçantes disciplinas de graduação, uma vez que a nação não tinha juízo suficiente para abrir concursos para uma casta superior de pesquisadores, mas sim de professores de terceiro grau, o que era um verdadeiro acinte para fazê-lo gastar seu latinório com estudantes mal desasnados das escolas secundárias. Inspirado em outro velho Mestre dos saudosos tempos da graduação, levara à perfeição o laborioso sistema de atribuição de novos títulos para os artigos surrados. O mesmo texto, com pequenos retoques em alguns parágrafos, por obra dessa refinada artesania ganhava novos títulos como Obnubilações medievais e resplendor do saber em Castela a Velha; Entre luzes e obscuridades: um approach do conhecimento nas Universitas do Medievo ibérico; Para além da penumbra: o imaterial e o gestual no lusco-fusco da aurora moderna em terras hispânicas. Isso entre muitas outras encarnações do mesmo espírito em diferentes corpus textuais.
O pequeno Ettienne, numa dessas manhãs aziagas, perguntara a seu laureado genitor para que servia a história. Ante tamanha impertinência e tão periculoso questionamento, discorrera ao infante, com propriedade de longa e vitoriosa carreira, sobre o intrincado sistema de mérito, que envolvia um profundo aprendizado de normas e critérios que se situavam para além da compreensão dos simples e exigia uma profunda disciplina pessoal e profissional. Uma espécie de entidade etérea, com uma poderosa e compassiva mão invisível, controlava todas essas démarches organizadas por desígnios da providência oculta, parcialmente visível apenas aos iniciados, os únicos autorizados a encarar temerosos a severíssima e augustíssima face e a ouvir o sonante balido do bezerro de ouro. O ponto mais incômodo da singela e terrível pergunta do pequerrucho Ettienne é que ela seguia além do “quanto publicas?”, para adentrar searas mais espinhosas e arriscadas do “por que publicas?” e “para quem publicas?”.      
Criara-se uma curiosa gradação suprema, na qual um mero doutor não poderia entrar, caso não tivesse atravessado os umbrais da GLÓRIA e da FAMA, essas divindades diáfanas tão cultuadas nos recônditos arcanos, mas nunca confessadas nas discussões democráticas que vez por outra criavam o sentimento de uma fraternidade que obedecia exatamente o que deve obedecer uma fraternidade que se preze: os manos mais velhos mantém o doce controle dos caçulas e estudam a manutenção das poses hieráticas e a escolha das palavras apropriadas para os momentos de cerimonial, democraticamente batizados de intercâmbio. O outrora exaltado estímulo ao exercício do senso crítico tinha sido reorientado para uma prática da formação de pequenos cenáculos, que se digladiavam contra seus opositores, tendo como norma fundamental detestar tudo aquilo que tivesse sido escrito pelos corifeus do cenáculo rival ou seus epígonos, mesmo que muitas vezes sequer se tivesse lido uma linha dos desafetos, de preferência, melhor não lê-los mesmo. Para tanto, um popular carimbo com a chancela SUPERADO resolvia qualquer dúvida.     
               Na parte inferior dessa curiosa cadeia alimentar, pequenos insetinhos teciam loas e panegíricos aos seus maiores e sonhavam com seu momento de romper a crisálida, a partir do qual poderiam borboletear à vontade nos campos do senhor. Seguiam diligentemente os princípios agradistas de Chupanga (apud Mia Couto): submissos com os grandes, arrogantes com os pequenos. Acima desse lócus, pairava o dístico “o medo paralisa a inteligência e mobiliza o servilismo”. Antigas tradições de associar o rigor científico à sua dimensão de inserção social eram associadas a um espírito démodé, francamente ultrapassado, cultivado por uns paleozóicos ingênuos até bem intencionados, mas condenados a um rápido desaparecimento sob as molas inexoráveis do progresso. Aquela idéia de aproximar a academia das questões mais amplas de uma sociedade era coisa para alguns profissionais de segunda linha e deixar de praticar esse tipo de atividade permitia o tempo suficiente para o exercício mais nobre das funções do mandarinato universitário. Fuori le mura e para além desse cintilante fliperama, a vida continuava tão implacável como sempre e tudo que interessava em termos de conhecimento histórico às massas ignaras poderia ser fornecido por publicitários das melhores redes de televisão e gerentes do trepidante mercado editorial.



domingo, 4 de agosto de 2013

REGRESSÃO CONTINUADA

No primeiro ano não sabe ler nem escrever. É mais que esperado.

No segundo ano não sabe ler nem escrever. É parte do processo.

No terceiro ano não sabe ler
nem escrever. É bastante compreensível.

No quarto ano não sabe ler nem escrever. É admissível, mas problemático.

No quinto ano não sabe ler nem escrever. É complicado, mas dá pra ter esperança.

No sexto ano não sabe ler nem escrever. A coisa começa a ficar muito séria.



No sétimo ano não sabe ler nem escrever. A situação vai assumindo ares desesperadores.

No oitavo ano não sabe ler nem escrever. Virou caso de segurança nacional.

No nono ano não sabe ler nem escrever. Prendam os responsáveis pelo crime.

sábado, 3 de agosto de 2013

EXERCÍCIOS INÚTEIS PARA HORAS FÚTEIS



Para ler Braudel e a longa duração – Contar o número de mudanças de marcha no caminho de casa para a Universidade. Depois sofisticar o processo e distinguir o número de avanços e reduções do câmbio. Discernir as diferentes durações do trajeto.


Para interpretar certas revoluções – Pesquisar atentamente as diferentes versões de obras históricas que refundam a ciência e relegam todo o acervo anterior ao limbo. Depois conferir como determinadas velharias costumam a reaparecer com novas e vistosas roupagens.

Para botar a cauda para balançar o cão – Reproduzir o já feito tantas vezes quanto possível e simular novidades onde está apenas o mesmo. Perder um tempo infindo preenchendo formulários de variadas cores e formatos. Chamar isso de progressão.

Para botar a cauda para balançar o cão II – Gastar inúmeras horas preenchendo formulários de projetos. Gastar mais horas intermináveis preenchendo formulários de avaliação. Passar apenas poucas horas realizando efetivamente o trabalho. Chamar isso de progressividade.

Para ajudar a crescer a nação – Ganhar pontos através dos diferentes métodos de fazer a cauda balançar o cão. Consignar tudo isso num dos mil e um sistemas avaliativos estabelecidos pelos mil e um órgãos avaliativos. Divulgar urbi et orbi que “ninguém segura esse país”.

Para preservar a memória gloriosa – Colocar nas ruas, praças e escolas os nomes do Prefeito, da mãe do Prefeito, da avô do Prefeito, da prima do Prefeito, do cunhado do Prefeito, de um ex-ditador, de outro ex-ditador, do benemérito que deu um golpe de Estado.    

Para preservar e memória gloriosa na Capitania – Dar a um Gymnasium o nome de um potentado que não entende de gymnástica, dar o mesmo nome a ruas e ágoras capitania afora. Fazer o mamulengo de plantão nomear nova obra com o nome do potentado.

Para preservar a memória gloriosa na sub-colônia – Nomear a estrada que ingressa no torrão pelas fronteiras do grande sul em homenagem a um governante de terras distantes. Achar isso o máximo da sapiência e denominar como modernidade.     

Para fazer valer minha alteridade – Ingressar no Clube da Minha Patota. Negar qualquer possibilidade de intercâmbio ou convívio com as patotas rivais. Exaltar empolgado o respeito às diferenças, mas não aceitar os diferentes sob qualquer condição.

Para construir a autonomia intelectual – Prescrever a lista das leituras permitidas para os pupilos. Estabelecer o index librorum prohibitorum onde estão os livros dos desafetos superados. Fazer repetir os ditados prescritos e chamar tudo isso de ciência.   
   
Para garantir a livre comunicação – Usar sistematicamente os deforetes em toda e qualquer circunstância. Solicitar aos duplipensantes e à polícia do pensamento autorização para o uso correto da 18ª edição do Dicionário de Novilíngua. Apodar isso como liberdade.


Para estreitar os laços de amizade – Nomear-se diferente de tudo e todos. Defender intransigentemente o apartheid entre todas as diferenças e todos os diferentes. Viver sozinho e cuidar do próprio umbigo. Conclamar que isso se chama fraternidade.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Blogueira vaticanesa segue presa e incomunicável.

O caso da blogueira vaticanesa sacode o diafragma das autoridades ocidentais, preocupadas em liquidar o eixo do mal e em levar à frente a cruzada pelas direitas humanas. 









*Da agência livre de Tirana

                A famosa blogueira vaticanesa[1] segue presa e incomunicável, apesar dos inúmeros protestos de entidades democráticas em todo o mundo, como a Opus Dei, o DEM, a Mocidade Salazarista, a Suharto University, o Tea Party, o Clube Alberto Fujimori, a Veja, a Juventude Tucana, a Associação das Viúvas do Generalíssimo Franco, a National Rifle Association (Charlton Heston Memorial), entre outras.
                O grau de incomunicabilidade da famosa blogueira é tal, que ninguém nunca viu nenhuma postagem da moça, apesar de tanta comoção que essa invisibilidade gera. Declarações bombásticas de Bush Júnior, Wladimir Putin e Sílvio Berlusconi em favor da libertação da blogueira não surtiram efeito nos pavilhões auriculares de Benedito Ratzi, jovem ocupante in pectoris do governo local.
                Assim comentou Berlusconi ao jornal Clarín:
                – É inadmissível que a ragazza continue incomunicável, uma vez que sou sempre a favor da mais ampla liberdade de informação e comunicação, conforme os sagrados preceitos de Murdoch, Marinho e Goebbels, em defesa da imprensa livre.
                Fontes confiáveis garantem que a blogueira chegou ao território italiano foragida de um campo de refugiados esloveno logo após a guerra da Coréia, através de Odessa. Ela foi vista em Brindisi e depois sumiu das vistas públicas nas cercanias de Castel Gandolfo. Desde 1977, ainda na infância do humanista Augusto Pinochet, a blogueira inspira movimentos pela democracia mundial, sendo fonte conspiradora da derrubada da ditadura granadina[2] pelas forças libertadoras de Reagan, o mocinho do Ocidente.
Suas postagens, nunca vistas, falam sobre temas estarrecedores e completamente desconhecidos do vulgo e do não-vulgo. Entre tais assuntos, se supõe que ela aborde questões sobre a importância da liberdade feminina na Índia, o legado caritativo de Imelda Marcos, a obra libertadora de Anastasio Somoza, o valor insuperável do Apartheid para a civilização, a sapiência das elites paraibanas e outros de igual jaez. A blogueira é uma das únicas pessoas vivas que conhecem o segredo do juiz Javier Castrilli sobre o famoso pênalti marcado contra a Portuguesa de Desportos, em circunstâncias jamais totalmente conhecidas, apesar de sobejamente investigadas pelo serviço de espionagem do Butão.   
                Segundo rumores, ela é mantida sobre severa vigilância e seu acesso à rede de computadores é controlado rigorosamente por guardas suíços pomposamente armados, de tal forma que até o momento não foi possível conhecer qualquer uma de suas postagens. Não se sabe a extensão da ramificação de suas conexões, mas se supõe que um e-mail secreto da blogueira estimulou o Príncipe Dipendra a assumir pacificamente o poder nepalês em 2001, na aurora do novo século.
                Circula na rede mundial um indignado manifesto de solidariedade à blogueira vaticanesa, exigindo que sua luta pelas direitas humanas seja encampada numa frente de solidariedade internacional, sob financiamento da Liberty League encabeçada pela Anaconda Copper, Nike Inc. e Union Carbide. A Medici-Videla Foundation promete organizar uma mobilização patriótica em defesa da liberdade ocidental e em homenagem à inspiradora dessa cruzada libertadora.        



[1] Vaticanesa: Natural do Estado do Vaticano, erguido nas antigas terras de além Tibre, pertencentes a Remo, fraternalmente liquidado por Quirino na noite dos tempos. Governado por autoridade Monárquica, o Estado é o único do mundo que não possui população nativa, apenas residente. A Maternidade local não funciona desde o nascimento da pimpolha Lucrécia, mas garante emprego a uma linhagem de nepotes papais nomeados originalmente para a sua direção por Rodrigo Bórgia.  
[2] Referente a Granada, que teve sua ditadura derrubada pelas forças de Reagan, o mocinho do Ocidente, depois do bombardeio cirúrgico do centro cirúrgico do Hospital local. 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

DEFORETES/DEFORETAS



O poeto falou para seu colego, também poeto, que estava um/uma dio/dia muito/muita bonito/bonita para se fazer uma/um poesia/poesio que tratasse da/do natureza/naturezo e que falasse de sentimentos vindos da/do alma/almo.

O dentisto falou para a sua pacienta que seu/sua dente/denta estava com um/uma abcesso/abcessa e que isso demandaria um/uma tratamento/tratamenta que custaria muito/muita dinheiro/dinheira e exigiria muita/muito paciência/paciêncio da pacienta.

O dono do/da circo/circa falou para os/as palhaços/palhaças que suas/seus graças/graços estavam precisando de uma/um inovação/inovaçõo para que o/a distinto/distinta público/pública pudesse dar risadas/risados mais freqüentes/freqüentas.

O/a diabo/diaba falou para o/a morto/morta que iria carregar o sua/seu alma/almo para o/a quinto/quinta dos/das infernos/infernas, a fim de que ele/ela pagasse pelos/pelas pecados/pecadas que havia cometido durante o sua/seu vida/vido desregrada/desregrado.

A estudanta de História/Histório falou para o estudanto de Geografia/Geografio, que ambas/ambos as/os ciências/ciêncios eram bastante próximas/próximos e que deveria haver mais diálogos/dialogas entre as/os mesmas/mesmos.

O Presidento da/do República/Repúblico decretou que todos/todas os/as cidadãos/cidadãs deveriam participar dos/das festejos/festejas da/do independência/independêncio do/da país/paísa naquele/naquela ano/ana. 

O diretoro da/do Escola/Escolo disse para os/as professores/professoras que os/as alunos/alunos andavam fazendo muita/muito bagunça/bagunço, o que vinham afetando o/a rendimento/rendimenta escolar de forma negativa/negativo.

A maestra da/do orquestra/orquestro notificou aos/às músicos/músicas que eles iriam se dedicar ao/à ensaio/ensaia de uma/um obra/obro que exigia/exigio um/uma solo/sola de flauta/flauto muito/muita complexo/complexa.

Havia um/uma país/paísa muito/muita justo/justa, que decidiu instalar uma/um lei que determinava/determinavo que as/os pessoas/pessoos tinham/tinhom o/a direito/direita de participar da/do política/político de maneira/maneiro direta/direto.

A/o polícia/polício notificou aos/às cidadãos/cidadãs que a partir daquela/daquelo data/dato haveria/haverio barreiras/barreiros de fiscalização nas/nos principais avenidas/avenidos da/do cidade/cidado todas/todos as/os noites/noitos.

Por má/mal consciência/consciêncio as/os pessoas/pessoos começaram a se auto-vigiar e se proibiram de falar qualquer coisa/coiso que lhes desse na/no telha/telho, de forma que ficaram todos/todas privadas/privados da/do fala/falo.

A/o facilidade/facilidado de comunicação é um sinal de que as/os pessoas/pessoos trocam idéias/ideios, experiências/experiêncios e enriquecem as/os suas/seus vidas/vidos com o/a aprendizado/aprendizada mútuo/mútua.

O/a intercâmbio/intercâmbia cultural é muito/muita importante/importanta para abrir os/as horizontes/horizontas dos/das indivíduos/indivíduas e permitir que haja ganhos/ganhas em termos de vivência/vivêncio.

As/os Atas/Atos da/do Câmara/Câmaro dos/das Deputados/Deputadas e do/da Senado/Senada registram/registrom as/os discussões/discussõos dos/das projetos/projetas de lei que tramitam naquelas/naquelos Casas/Casos Legislativas/Legislativos.

Na/no nova/novo edição do/da dicionário/dicionária da/do língua/línguo portuguesa/português os/as verbetes/verbetas obedecem o/a critério/critéria de respeitar todas/todos as/os diversidades/diversidados existentes/existentos.

O/a sexo/sexa é um/uma assunto/assunta sempre explosivo/explosiva e polêmico/polêmica e que provoca/provoco debates/debatos entre intelectuais, que atraem a/o atenção da/do mídia/mídio e da/do população/populaçõo.

No/na curso/cursa de educação, moral e civismo/civisma aprendemos/aprendemas a respeitar os/as símbolos/símbolas nacionais e a acatar valores/valoros importantes/importantos para a/o vida/vido em sociedade/sociedado.

A/o busca da/do felicidade/felicidado é um/uma objetivo/objetiva fundamental de muitas/muitos sociedades/sociedados humanas/humanos e é sempre difícil/difícia definir com precisão qual é o/a valor/valar real da felicidade/felicidado.

O/a Papo/Papa mora/moro no/na Vaticano/Vaticana, de onde/onda governa/governo a/o Igreja/Igrejo Católica/Católico Apostólica/Apostólico Romana/Romano em todo/toda o/a mundo/munda e faz a sua benção/bençãa urbs/urbas et orbs/orbas. 
  
Nas/nos palavras/palavros residem os/as significados/significadas que atribuímos às/os coisas/coisos que nos cercam/cercom e elas/elos permitem que comuniquemos isso aos/às outros/outras de/do forma/formo oral/orol ou escrita/escrito.

Um homem e uma mulher resolveram combinar que iriam tomar um/uma sorvete/sorveta no/no sorveteria/sorveterio da/do esquina/esquino porque estava/estavo muito/muita calor/calora durante aquela/aquelo noite/noito de verão/verã.

A Senadora usou a/o forma/formo de tratamento/tratamento correta/correto e chamou o Senador de Vosso Excelêncio, como deve ser obedecida/obededido a/o norma/normo de convivência/convivêncio numa/num sociedade/sociedado democrática/democrático.

O/a futuro/futura da/do História/Histório garantirá que todos/todas os/as seres/seras humanos/humanas terão todo/toda o/a acesso/acessa aos/às recursos/recursas indispensáveis para que haja/hajo a/o plena/pleno justiça/justiço.

O/a deforete/deforeta termina quando o/a leitor/leitora decidir que está na/no hora/horo de tomar juízo/juíza e resolver cuidar de assuntos/assuntas mais importantes/importantas que esse/essa breve/breva momento/momenta de/da ócio/ócia.  

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Desconstruindo Hobsbawm




Ingredientes:

  • Quantidades paquidérmicas de servilismo
  • Trinta moedas de abjuração
  • Umas tantas doses de inveja (para tempero)
  • Duas ou três medidas de farinha de ignorância (a gosto)
  • Três pitadas de sensacionalismo
  • Quatro penas de tucano untadas de tinta venenosa
  • Cinco litros de óleo de peroba
  • Um economista do Federal Reserve, pois sempre é necessário alguém para orientar o cozinheiro maluco

Modo de preparar:

Aqueça o óleo de peroba num caldeirão, mas não esquente demais, porque a moderação é virtude dos sapientes. Quando estiver morno (tudo deve ser sempre morno nessas ocasiões), acrescente de forma “lenta e gradual” a farinha da ignorância até formar uma gororoba indigesta e bastante insípida. Enquanto a gororoba descansa, lave à parte as doses de inveja nas moedas da abjuração e deixe em infusão durante o tempo necessário para a mistura ficar bem consistente (aproximadamente nunca, porque não tem mesmo consistência). Coe o molho e o adicione aos poucos à gororoba, tentando amaciar a massa com as mãos. Nesse momento, deve-se polvilhar tudo com as pitadas de sensacionalismo e salpicar a receita com as penas de tucano. Por fim, tudo deve ser banhado pelo servilismo. Deixe descansar mais um pouco e leve a um forno de alguma estatal “privateada” para dourar como o ouro de tolo.


Modo de servir:

Sirva de forma periódica, para um público desejoso de fórmulas de auto-engano. Se os convidados à ceia estiverem sequiosos, pode-se acompanhar o prato de qualquer líquido dopante, a fim de deixar os degustadores inebriados com o mais fino paladar e com os mais sofisticados aromas emanados de tal iguaria. Ah, não esquecer que a parte do leão fica sempre para o gringo do FED e o distinto público indígena pode se deliciar à vontade com as migalhas que porventura restarem.